7 de setembro de 2023

7 de setembro de 2023

Acordei mais tarde que o habitual no dia 7 de setembro de 2023, curtindo o feriado.

À exceção do que ocorrida na minha infância de década de 70, quando todos os alunos da rede pública “marchavam” sob o som repetitivo da fanfarra escolar, e dos tempos de serviço à pátria no Exército Brasileiro, em que participar o desfile era obrigatório – e uma honra –, apenas voltei à avenida do desfile cívico-militar no ano passado, quando comemoramos 200 anos da Independência do Brasil.

Ligo a televisão e busco o noticiário, algo que também não tenho feito há anos, pois, como cantava Raul Seixas, “mentir sozinho eu sou capaz”.

Um quarteto de repórteres, fingindo isenção, criticava “a politização” e “a polarização” em curso.

Ordinariamente falavam mais do ex-Presidente da República do que do atual, variando apenas os adjetivos direcionados a cada um.

Os comentários, feitos em quadrados da tela da TV em que apareciam apenas os rostos dos interlocutores tinham, como moldura lateral, um quadrado de tela maior, em que apareciam “flashes” de Brasília/DF. Neles aeronaves faziam magníficas manobras no céu de Brigadeiro; a primeira dama aparecia “fazendo o L” sobre um Rolls Royce, com vestido tão vermelho quanto a gravata do marido e adereços de grife que copiavam artesanato indígena; filmava-se uma arquibancada preenchida com pessoas vestindo variadas cores, mas com um boné igual, fornecido pelo Banco do Brasil; surgia uma foto em que o Presidente da República, o Ministro da Defesa e os comandantes das três forças armadas esticavam suas mãos sob à do Comandante Supremo, em um cumprimento que lembrava o “Quarteto Fantástico”, dos quadrinhos.

Vez por outra os flashes eram interrompidos e apresentados repórteres “de rua”, que mostravam filmagens noutras localidades do país. Ao final, no desfile dos veículos militares, algo que eu nunca tinha visto antes: veículos do Exército Brasileiro ladeados por vermelhíssimas viaturas do Corpo de Bombeiros, em muitas composições diferentes da frota!

Meu filho mais velho, de quinze anos, que também namorava um pouco mais a cama no feriado, acorda e vem me abraçar com um, ainda rouco, bom dia.

– Sente aqui ao meu lado, filho! O que você vê de estranho na TV?

Após algum tempo de observação, ele responde:

– Todos estão de cabeça baixa, inclusive os que desfilam; na arquibancada quase todos estão com os mesmos bonés; está cheio de carros vermelhos desfilando; o repórter fala que a rua tá cheia, mas a filmagem atrás dele prova que não é verdade; a mulher do Presidente está “se achando” mais que ele; os comentaristas estão forçando a barra!

Ele se levanta e sai para tomar o café e eu desligo a TV, orgulhoso por saber que meu filho de quinze anos, ainda sonolento, já sabia distinguir o que a maioria ainda não vê.

Conjecturas surgem em minha cabeça.

Eu, como a maioria dos brasileiros, há bem pouco tempo não sabia muito bem a diferença entre o sete de setembro e o quinze de novembro. D. Pedro I, D. Pedro II, Duque de Caxias, Marechal Deodoro e Marechal Floriano Peixoto, eram meros retratos fardados dos livros e nomes decorados. Os professores de História não faziam muita questão de explicar: aprenderam na faculdade que os feitos históricos da família imperial eram articulações “da elite opressora e da monarquia totalitária” e que os militares eram figuras apenas burras e autoritárias (pelo menos era o que falavam em sala de aula para criancinhas em pleno período militar pós 1964).

Na minha percepção emocional, a primeira data sempre se mostrou mais importante e, a segunda, mais apagada. E quanto às personagens, páginas de um tempo que não existe mais.

Interrompo as divagações acima ao receber um vídeo pelo WhatsApp: nele um soldado do Exército, feito de garçom, orgulhosamente distribuía cachorros-quentes para uma turma de civis que usava os tais bonés distribuídos pelo Banco do Brasil. Encaminhei para amigos que compartilham minhas vergonhas de oficial da reserva. É ruim sofrer sozinho!

Volto a conjecturar. Num átimo, a história se refez e, em meu cérebro torturado, se mostrou lógica.

O D. Pedro I, muito incentivado pela sua nobre esposa Maria Leopoldina, com apenas vinte e quatro anos “encarou” a própria família portuguesa e declarou o Brasil, antes reino unido de Portugal, um país independente. Ante a crise instalada em Portugal, beirando uma guerra civil gerada, em parte, por tal ato, tem que abdicar de seu trono para socorrer a família e a pátria de origem. Deixa seu jovem filho brasileiro como imperador, mas provisoriamente tutelado. Ele cresce e demonstra sabedoria, espiritualidade, seu amor pela pátria e pelos brasileiros num momento riquíssimo de nossa história em todos os sentidos. Sua filha mais velha, Isabel, pôs termo à escravatura, passando a ser conhecida como “A Redentora”. Em meio à festa do ato, e orgulhosa de seu corajoso feito, foi interpelada pelo Barão de Cotegipe, que lhe disse que ela acabava de perder o trono por aquele ato.

– “Se mil outros tronos eu tivesse, mil tronos eu perderia para pôr fim à escravidão!” – ela lhe respondeu.

E esses brasileiros hercúleos, cujas origens rederam-nos o verde (Casa de Bragança) e o amarelo (Casa de Habsburgo) de nossa bandeira, que posteriormente plagiadores recalcados disseram representar o verde e o ouro, tornando os símbolos de honradez familiar históricos em símbolos econômicos e venais, foram expulsos por aqueles que Proclamaram a República – olvidando que o próprio D. Pedro II também a apoiava, cuidando de sua maturação,  e que já tínhamos a implementado aos poucos na nação, com reserva apenas de um poder moderador, que até hoje, em 2023, faz tanta falta…

E quem eram eles? Bem, eles eram militares que ostentavam as maiores patentes já concedidas (e merecidas na Guerra do Paraguai) e que também brigaram entre si, logo de cara, na disputa do posto de comando tirado da realeza, a pedido e patrocínio daqueles que verdadeiramente tinham o dinheiro e o poder: os tais coronéis (que não eram militares) e os barões.

A saudade dos imperadores nascidos no Brasil, prematuramente retirados, ainda hoje gera vácuo que se manifesta desde o Rolls Royce que hoje substituiu a carruagem real, às pompas e circunstâncias dependuradas nos uniformes bajuladores. Por fora, vemos cópia mal feita. Por dentro não vemos a honra, a erudição, a honestidade, a história que já foi e continua sendo furtada dos brasileiros que continuam, em maioria, dormindo num berço que, aos poucos, deixa de ser esplêndido.

E vendo a repetição da história em minha televisão com os mesmos sorrisos falsos, tapinhas nas costas e em outras partes, num arremedo ridículo da nobreza real, penso que se deve cogitar pela transferência dos desfiles militares para 15 de novembro. É mais lógico: foi nesse dia que os invejosos, soberbos, vaidosos e venais se reuniram contra os verdadeiros brasileiros amantes da pátria, dela expulsando seus honrados fundadores.


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