A Guerra da Ucrânia – Capítulo 3 – As raízes

A Guerra da Ucrânia – Capítulo 3 – As raízes

Minha família tem algumas testemunhas de fatos históricos importantes. Meu avô contava sobre a madrugada em que a avó o acordou, apavorada: “Levante-se Hans, vamos fugir, vai haver guerra. Mataram o imperador!” Ela se referia ao Arquiduque Ferdinando, cujo assasinato deflagrou a primeira guerra mundial. A mesma avó contava ao pequeno Hans sobre a manhã na qual os soldados do imperador austríaco Francisco I passaram por sua vila, recolhendo todos os cavalos disponíveis para enfrentar Napoleão Bonaparte. 

Meu bisavô austríaco passou a primeira guerra mundial em uma estação de observação de artilharia  e comunicações na fronteira com a Alemanha. Operava telefones, um telégrafo e – pasmem! – um rádio, a última palavra em tecnologia. Enquanto isso, meu avô ucraniano, o rabino Schapirnik, fugia dos pogroms (linchamentos coletivos) da Ucrânia, chegando à região da Bohemia quando o mapa que o trazia já não valia mais: havia no lugar da Bohemia e da Morávia uma certa Tcheco-Slováquia.

As guerras na Europa geralmente têm raízes mais antigas do que a maioria das pessoas sabe. A segunda guerra mundial foi basicamente uma vingança de Hitler contra os franceses, que haviam humilhado os alemães ao final da primeira guerra mundial, no tratado de Versailles. Já a primeira guerra mundial foi a chance que os franceses esperavam de dar o troco aos alemães depois da humilhante derrota em Sedan, na guerra Franco-Prussiana, em 1870, que, por sua vez, foi uma revanche prussiana da derrotas sofridas diante de Napoleão entre 1800 e 1810. Mágoas guardadas coletivamente por décadas.

A guerra da Bósnia não foi diferente. Foi um acerto de contas pendente desde o fim da segunda guerra mundial, quando os croatas se aliaram aos nazistas e, usando dos mesmo métodos alemães, exterminaram um terço da população dos sérvios, inclusive montando um imenso campo de concentração que matou mais de 100.000 pessoas. Em 1991, a vingança sérvia começou pelas mãos sangrentas de Slobodan Milosevic´.

A guerra da Ucrânia também envolve cicatrizes do passado.  

  1. Stalin resolve mudar o perfil produtivo da União Soviética à força. Com uma “canetada”, ordenou que parte importante da força de trabalho das fazendas russas fosse transferida para as cidades para construir o novo parque industrial russo. Obviamente, por falta de mão de obra, a produção de alimentos caiu perigosamente. Stalin concluiu que os antigos donos das terras, tornados meros administradores das “fazendas do povo soviético” eram inimigos do povo e estavam diminuindo a produção propositadamente. Solução? Stalin ordenou que os escritórios locais do Partido Comunista designassem grupos de homens fiéis à causa proletária para gerirem as fazendas. Resultado: pessoas em quantidade insuficiente, sem qualquer conhecimento de agropecuária, assumiram a produção de alimentos. A produção despencou para níveis desesperadores. Antes que a barriga de seus apoiadores roncasse, Stalin mandou o seu exército recolher TODA a produção de alimentos da região mais fértil da Europa, a Ucrânia, e enviasse a Moscou. Um milhão de ucranianos morreu de fome vendo os caminhões e trens levando toda a comida do país para longe. Obviamente houve protestos de políticos, intelectuais, artistas, veteranos de guerra e pessoas que tinham voz diante do Partido Comunista. Stalin resolveu isso rapidamente, matando quase 500.000 deles nos Gulags. Assustou-se com o número? Explico: uma vez que um sujeito era apontado como “inimigo do povo “, todos os seus familiares e amigos próximos eram presos junto com ele, na proporção estimada de 20 pessoas para cada suspeito. 

Nos dez anos seguintes, o mesmo roubo de alimentos se repetiu, atingindo a marca aterradora de sete milhões de mortos pela fome.

E foi por isso que os nazistas foram saudados por muitos ucranianos como libertadores em 1941, especialmente os que já simpatizavam com as suas idéias anti-semitas. Muitos lutaram com uniformes alemães contra os soviéticos. Outros lutaram com uniformes soviéticos contra os alemães. E alguns lutaram contra os dois exércitos invasores ao mesmo tempo.

A mágoa contra Moscou já foi explicada, mas para entender a mágoa contra os ucranianos aliados aos alemães, basta dizer que a SS, a tropa política de Hitler encarregada da limpeza étnica, fanáticos extremistas muito bem equipados,  foi encarregada de absorver, treinar, e doutrinar os voluntários ucranianos. Estas tropas SS ucranianas empregaram exatamente os mesmos métodos dos seus mestres nazistas contra seus compatriotas do lado soviético. Não é preciso entrar nos horríveis detalhes.

A tentativa de Putin de tomar a Ucrânia destampou uma panela de mágoas profundas, que estava azedando em silêncio por 70 anos.

Imagem de vecstock no Freepik


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