A Guerra da Ucrânia – Capítulo 4 – O que é que a Ucrânia tem

A Guerra da Ucrânia – Capítulo 4 – O que é que a Ucrânia tem

Imagine Carmem Miranda com seus enormes brincos de argola cantando “o que é que a Ucrânia tem”. 

Você teria que retirar do chapéu dela as frutas tropicais e colocar minério de ferro e manganês, essenciais para a indústria em geral. Titânio, indispensável para motores a jato e componentes aeroespaciais. Grafite, para a indústria cimenteira. Urânio, fonte energética da maior parte de geração elétrica da Europa. Junte a tudo isso o milho, trigo, batata, cevada e soja em quantidades surpreendentes para um um território tão pequeno.

Agora você já sabe porquê Vladimir Putin quer a Ucrânia.

Mas Putin já não é “dono” de um dos maiores países do mundo, com vastas reservas de petróleo e gás natural? Porquê arriscar sua posição para ter ainda mais? Eis o ponto chave da história: ele não é o único dono. 

Com o desmantelamento da União Soviética, toda a vasta, porém pobre, rede de abastecimento estatal da Rússia se desfez. Ao mesmo tempo em que faltavam produtos básicos, havia um desejo reprimido, desde a segunda guerra mundial, de consumo de produtos ocidentais, que agora poderia se realizar. Homens de muita iniciativa e poucos escrúpulos viram ali a oportunidade de iniciar um promissor mercado de contrabando, que cresceu com facilidade diante dos valores baixos exigidos pelos subornáveis, nas décadas de 80 e 90. Foi quando um certo agente da KGB percebeu que a proteção que vendia aos contrabandistas poderia render bem mais se estes se tornassem empresários. Rapidamente, estes empresários conseguiram dinheiro suficiente para eleger fantoches para cargos públicos e para legalizar seus negócios, avançando sobre os escombros da exploração estatal dos recursos naturais russos. Sob a consultoria e proteção deste ex-KGB (Putin), estes homens (cerca de 40 pessoas) se tornaram os oligarcas que controlam boa parte da economia russa. Eles mantêm Putin rico e poderoso. Putin os mantém bilionários e acima da lei. Uma simbiose perfeita.

Mas eis que surgem as crises mundiais de 2004, 2008 e 2014, derrubando o poder de compra do povo russo e diminuindo os ganhos dos oligarcas. Estes, deitados sobre os louros da vitória, nada reinvestiram, deixando seus equipamentos envelhecerem, encarecendo os processos e levando à perda de competitividade no mercado internacional. Os oligarcas pressionaram Putin por uma solução rápida. Putin olha para o mapa da Europa e se lembra de que tem um vizinho com valiosos recursos naturais.

Putin, como todo russo, é um bom jogador de xadrez, que é matéria escolar na Rússia. Sabe planejar seus passos para chegar aonde quer. É também faixa preta de judô, arte marcial que se baseia em utilizar a força do adversário contra ele próprio. Primeiro, seria necessário minar a força dos oligarcas ucranianos – sim, o mesmo processo ocorreu na Ucrânia após a queda da União Soviética.

Victor Yuschenko

Putin começou “contratando” o bilionário ucraniano Medvechuk para fazer uma forte campanha pró-rússia na imprensa, insuflando a população de descendência russa nas províncias ao leste da Ucrânia, vizinhas da Rússia, contra o governo Ucraniano. Depois, apoiou a eleição de um aliado, Viktor Yanukovitch para presidente. Não funcionou. Viktor Yuschenko, nacionalista e pró-ocidente, foi eleito, mas a um alto custo. Envenenado com Dioxina, substância muito usada pela KGB, quase morreu e teve que passar por 24 cirurgias. Seu rosto permanentemente desfigurado tornou-se um símbolo da luta contra o poder de Moscou. 

Julia Timoschenko

Yuschenko trouxe como ministra dos combustíveis  a linda Julia Timoschenko, exaltada pela imprensa local como a mulher mais bonita do mundo na política. Compare Julia com Dilma e Angela Merkel, você vai concordar.

 Julia desfilou pela Europa com suas famosas tranças loiras costurando acordos que desvinculassem a economia ucraniana da Rússia. Ela própria, oligarca do setor de combustíveis, tentou elevar os impostos cobrados da estatal russa de gás natural, a GasProm, pela passagem de seus gasodutos por território ucraniano. A resposta de Putin foi o aumento em 460% do gás russo fornecido à Ucrânia e a prisão de Julia Timoschenko em um processo estranho e muito contestado pela imprensa ocidental, por três anos. Perseguida mesmo depois de anulada a sua prisão, foi chamada de “a Joana D`Arc ucraniana”.

Na era Putin, quatro dos cinco presidentes pré-guerra foram apoiados pelo Kremlin. (O dissidente quase morreu envenenado.) Em seguida veio Zelensky, o primeiro governante ucraniano oriundo da classe média e sem relações com o “big-money” russo. Por essa, Putin não esperava. 

Imagem de teksomolika no Freepik


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