Balido Doce

Balido Doce

Por meio do WhatsApp, recebi um vídeo de um jovem adulto que se apresentou como dirigente de um conselho de classe profissional, agradecendo simpaticamente pela presença maciça de seus dirigidos num congresso promovido pela entidade. Ao fim, ele convidou a audiência para participar de sua oficina itinerante sobre “racismo e branquitude” na profissão.

Nas imagens, que mostravam apenas a cabeça e o torso, o presidente da entidade – ou presidenta, como se autointitulou – trajava uma camisa que lembrava uma rede de pesca com malhas mais juntadas, tinha clareados os cabelos originalmente escuros, usava brincos rústicos encaracolados e tinha faixas pintadas de vermelho a partir das pálpebras, cujo conjunto sugeriria um simulacro de uma indígena – se os olhos emoldurados de carregada maquiagem e purpurina, contrastando com suas feições naturais bem masculinas, tais como testa proeminente, tez bronzeada, sobrancelhas grossas e a barba, não informassem de modo diverso.

O reenviei para uma grande amiga, colega de profissão do protagonista do vídeo, que já havia sofrido pelas arbitrariedades de seu conselho profissional no passado por suas opiniões pessoais e religião. Na época, não fossem as intervenções dos conselheiros mais experientes, ela poderia até perder a licença profissional, se considerados os votos ideológicos dos jovens conselheiros, ao invés de ser elogiada pela firmeza, coerência e técnica, como acabou acontecendo.

A resposta dela foi a seguinte: “se estivesse com terno e gravata e sem maquiagem, a fala dele não seria criticada.”

Esse caso exemplifica bem o quadro atual da propaganda, do politicamente correto e dos rumos da guerra cultural em curso.

A amiga citada, que já coleciona mais de quatro décadas e meia de exercício profissional diuturno de excelente qualidade e que afirma não ter partidarismo político definido, sem que se desse conta ou analisasse as informações com reflexão mais pormenorizada, subitamente respondeu-me com a afirmativa acima, que indicou a ideia de que o problema central era minha impressão sobre a aparência que denunciava a característica sexual, e não o que estava subliminarmente exposto no contexto e no conteúdo apresentados.

Isso revela o tanto que o investimento ideológico condicionado já está impregnado em nossos pensamentos e atos. O mais singelo bom senso orienta a adoção de aparência e condutas especiais quando alguém se apresenta como representante de uma coletividade, sobretudo um conselho de classe profissional, onde certamente milhares de profissionais, cada qual com suas peculiaridades, ideias e valores pessoais, se fazem representar por aquele que fala em seus nomes.

A extravagância e o personalismo, que talvez marquem a índole pessoal de alguém – talvez para compensar um enorme vazio espiritual – são convidados à moderação quando esse mesmo alguém não se apresenta ou fala por si somente. É inimaginável que uma advogada, trajando minissaia, bustiê e maquiagem superlativada, acompanhe seu cliente numa audiência judicial; que o Papa venha a público de bermuda e chinelo para cumprir seus misteres religiosos; que um médico substitua o jaleco por camiseta cavada num hospital. Por outro lado, é plenamente comum e incensurável que, nas respectivas vidas privadas, cada qual se apresente da forma que entenda ser mais adequada e agradável, atraindo seus afins.

Isso porque o advogado, atuando, busca representar os ideais da justiça e da correção; o Papa, o melhor da religião que lidera; e o médico, o equilíbrio, a higiene e a saúde que deseja resgatar. Quando alguém busca mais atenção para si do que para aquilo ou para a categoria que representa, prova que sua representação é falsa e de pouca importância, menor até que seu personalismo e vaidade.

Minha amiga, em parte, acertou “na mosca” ao dizer que, se ele estivesse de “terno e gravata”, causaria menor alarde.

Embora a profissão daquela categoria não exija o uso de terno, o rapaz propositalmente buscou, na extravagância visual, chamar atenção para aquilo que realmente valoriza: seu ego inchado e o movimento partidário-político-ideológico que não faz questão nenhuma de esconder, o que é provado pelo convite à oficina itinerante sobre “racismo e ‘branquitude’ na profissão” – seja lá o que isso for, já que cada dia criam uma palavra lacradora diferente para discernir o indiscernível e criar pretextos para colocar um filho de Deus com ódio do outro.

E “ai” de quem fizer qualquer tipo de observação! Imediatamente será “selado, carimbado, avaliado, rotulado se quiser voar” (os jovens idosos das décadas de 80 e anteriores entenderão). Os movimentos de lutas de classes são implacáveis: o emitente de qualquer opinião, por mais coerente, respeitosa e verdadeira, se contrariar qualquer item da “pauta” geral ou específica, será imediatamente taxado, julgado e condenado como machista, traidor da classe, homofóbico, racista ou mil “etcéteras” mais.

Esses tipos “pautistas” são encontráveis em todos os ambientes na atualidade, pois fizeram questão de infiltrar-se em tudo, não para acatar, aprender e colaborar com o propósito e progresso de cada grupo, entidade ou instituição, mas para usar agremiações já constituídas para divulgar suas pautas, ganhar adeptos e obter domínio.

Por isso, queridos leitores, novamente alertamos sobre os perigos da aparência: o que há bem pouco tempo considerávamos o mal, tinha aparência de um agressivo e temível lobo uivante. Hoje, contudo, ele pode estar vestido de um cordeiro exageradamente maquiado, e verbalizando doce e atrativo balido.

E quem não percebe o perigo, ou percebendo, não age por alertá-lo e neutralizá-lo, põe em risco a si mesmo, e a todo o rebanho. Haja coragem!


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