Blindagem versus canhão

Blindagem versus canhão

Leonardo da Vinci teve a idéia, mas os tanques só saíram do papel no final da primeira guerra mundial, para solucionar o absurdo impasse da guerra de trincheiras.

Avançar cem metros no terreno poderia levar meses e consumir facilmente 50.000 soldados de cada lado. Os soldados tinham que atravessar uma faixa de terra de 100 a 300 metros, cheia de arame farpado, que os forçava a parar para atravessar os obstáculos. O fogo de metralhadoras e morteiros os apanhava emaranhados no arame, em campo aberto, e a carnificina inútil era chocante.

Foi quando Winston Churchill, ainda Lord do Almirantado inglês, resolveu tirar a carroceria de um caminhão pesado e colocar no lugar uma imensa carapaça metálica que resistisse aos tiros de fuzil e granadas de mão. Movido por lagartas, visto que as rodas poderiam se agarrar nas inúmeras crateras do terreno incessantemente bombardeado, transportava soldados por cima do arame farpado, por cima das trincheiras, em meio à metralha, ultrapassando tudo aquilo rapidamente e sem perdas, em direção ao objetivo. Era o primeiro tanque, o Mark I. Tinha blindagem de 12mm de aço na dianteira e 6mm nas laterais, um canhão de 57mm e uma metralhadora Hotchkiss. Era movido por um motor de 105 cv e atingia a incrível velocidade de 6Kmh. (Os militares brasileiros não gostam de chamar esse equipamento de tanque. Por algum motivo, isso os ofende. Para eles, é um “veículo blindado”. Mas o fato é que foi chamado de tanque logo nos primeiros dias da sua existência, porque foi o nome dado ao projeto por Churchill em sua fase secreta de desenvolvimento, para evitar a espionagem alemã.)

A estréia do tanque, em 1916, foi um pavor para os pobres soldados alemães entrincheirados na Batalha do Somme. Um monstro de aço, invulnerável, que esmagava tudo sob as suas lagartas, atirando em tudo que se movia à sua volta. Os alemães se apressaram em desenvolver o seu próprio tanque e, claro, as primeiras armas anti-tanque, basicamente rifles pesados capazes de perfurar a blindagem. Rapidamente a blindagem foi reforçada, depois que tais armas apareceram. Contra blindagem mais grossa, armas anti-tanques maiores – os canhões anti-tanque. Depois colocaram estes canhões em tanques caçadores de tanques. Começa aí a eterna briga entre blindagem e armas anti-tanque.

De tempos em tempos, soluções anti-tanque (algumas bem heterodoxas) apareceram. Na segunda guerra mundial, os alemães treinaram cães para correrem até os tanques e se enfiarem debaixo deles, com explosivos presos às costas. Os russos inventaram o coquetel Molotov, jogado sobre as aberturas de refrigeração e tomada de ar dos motores dos tanques, incendiando a unidade motriz. Afegãos descobriram, nos anos 80, que os equipamentos ópticos dos tanques russos poderiam simplesmente serem cobertos por panos e pronto – o tanque estava cego, bem no meio de uma estreita estradinha de montanha, onde um metro a mais para o lado errado era uma queda em um desfiladeiro. Os afegãos se assentavam sobre o tanque e tomavam chá até os russos se renderem. Claro, era uma situação muito particular. Mas o que fazer com os tanques russos que não estavam na estradinha de montanha? A esta altura, a blindagem dos modernos T-90 russos era composta de 60mm de aço, seguida de 30mm de espaço vazio onde o calor e a energia da munição anti-tanque se dissiparia. Depois, 40mm de materiais compostos: fibra de vidro, fibra de amianto, borracha esponjosa com teflon e mais aço. Difícil de transpor, a não ser que se usasse uma munição especial, tipo flecha. O canhão dispara, com imensa energia, um conjunto que se desfaz no ar, sobrando apenas uma ponta de metal duríssimo, concentrando toda a energia do disparo sobre uma área de menos de 2cm quadrados. A flecha penetra a blindagem e sua carga explode no interior do tanque inimigo.

Nesta luta interminável entre blindagem e armas anti-tanque, o segredo também é uma arma. A que distância meu tanque pode levar um tiro do tanque inimigo sem ter problemas? A que distância meus tiros são efetivos contra o tanque inimigo? Pela frente? Pela lateral? Por trás?

Esses dados moldam as táticas de cada lado nas batalhas de tanques e podem significar a vitória de quem souber mais sobre o blindado do outro lado.

BlindagemTudo isso ficou menor quando os americanos criaram as munições de urânio extrudado. Aço mais duro perfura aço menos duro e, nessa luta metalúrgica, alguém reparou que não havia nada mais pesado, mais denso, do que o os restos de urânio de uma usina nuclear. (O famoso lixo atômico.) Tão denso que, disparado sobre uma blindagem, se comprime contra ela e atinge temperaturas acima de 1200 graus Celsius, derretendo tudo à sua frente e incendiando munições e combustível no interior do tanque. Contra estas munições, geralmente usadas em mísseis AGM65 Maverick e algumas munições disparadas por tanques, não há defesa.

E é por isso que Putin deixou bem claro: se os americanos entregarem munições de urânio extrudado para a Ucrânia (condenando à morte a força de blindados russos), ele usará armas nucleares.


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