Calibre não é documento?

Calibre não é documento?

Ninguém sabe ao certo quem teve esta idéia. Mas a maioria acha que foram os alemães, pouco antes da primeira guerra mundial. O raciocínio seria este: estabelecer como cartucho padrão para fuzil o Mauser 7.92 x57 (7,92mm de diâmetro do projétil por 57mm de comprimento do cartucho que contém a pólvora). O cartucho dos ingleses é o 7,62 x51. Se os ingleses capturarem depósitos de munição alemã, nada se aproveita. O cartucho Mauser é maior e não entra, por muito pouco, no cano do fuzil inglês. Mas, se a munição inglesa, ligeiramente menor, for capturada, alemães podem usá-la! Um simples kit de adaptação que se compunha de outro percussor, ferrolho e uma luva que se sobrepunha ao início do cano chegou a ser criado para isso, mas nunca foi usado em escala, porque era bem mais barato aumentar a produção de cartuchos Mauser do que fabricar o kit.
Em seguida, foi a vez de Stalin. O sujeito, definitivamente, não era normal, mas era cruelmente prático. Por exemplo, para desembarcar uma tropa russa por trás das linhas alemãs em Stalingrado, ele ordenou um desembarque aéreo. Como não havia paraquedas para todos, a maioria dos homens saltou sem paraquedas, a uma altura de cerca de 50 metros do chão, sobre a neve fofa, macia e espessa (segundo Stalin). Mais da metade morreu ou quebrou as pernas no salto. Emblemática também era a ordem dos homens correrem pelos campos, em meio aos tiroteios, em duplas: um com um fuzil e o outro desarmado. Se o sujeito com o fuzil fosse abatido, o desarmado pegaria o seu fuzil e continuaria o combate. Imagine ser enviado para combater o temido exército alemão, desarmado…

Stalin ordenou que os novos calibres russos fossem todos ligeiramente maiores que os calibres americanos. O morteiro de infantaria russo tinha 82mm, enquanto o americano tinha 81mm. O morteiro russo poderia disparar munição americana capturada, 1mm menor em diâmetro, mas o contrário não. A granada de 82mm simplesmente não entra em um cano de 81mm. O mesmo ocorreu com algumas peças de artilharia pesada.

Mais recentemente, os russos apareceram com dois calibres de diâmetro idêntico aos principais calibres de metralhadoras e fuzis americanos: o 7,62 e o .50. Mas veja a diferença: cartuchos OTAN – 7,62×51 e 12,7×99. Cartuchos russos – 7,62×57 e 12,7×108. Os cartuchos russos têm exatamente o mesmo diâmetro. Cano, extrator, carregador, funcionarão da mesmíssima forma com munição americana. Basta uma única pecinha que se encaixa ao ferrolho e percussor para alongá-los e tudo funcionará muito bem, usando munição capturada dos países da OTAN. Mas colocar um cartucho russo, mais comprido, dentro da arma americana ou européia, é impossível.

12.7×99 e 12.7×108

A versão moderna desta questão está em curso na Ucrânia. As peças de artilharia dos norte-coreanos são russas, então Putin foi às compras e trouxe 60 milhões de obuses de artilharia da Coréia do Norte, que têm as dimensões exatas para os seus canhões e morteiros. Trouxe também um número imenso de mísseis de médio alcance, antiquados, operados por softwares tão arcaicos que os russos não conseguem acessar. Até os conectores dos mísseis para os computadores que programam suas trajetórias são diferentes, e não se encaixam em equipamentos russos. Muita gente pensou que Putin tinha feito uma péssima compra. Mas Putin não comete este tipo de erro. Ele não queria mísseis de alta precisão, que atingissem exatamente o centro do alvo. Ele queria qualquer míssil. Qualquer um que voe razoavelmente rápido, sem direção certa, cheio de explosivos. Os caros e sofisticados mísseis russos Karachi, Iskander, Topol, Zircon, estavam sendo repetidamente abatidos pelos antimísseis Patriot. Um imenso desperdício de dinheiro e um atraso no avanço russo. A solução é simples: saturar o céu da Ucrânia com mísseis baratos e sem direção. As defesas ucranianas esgotarão seus recursos antimísseis abatendo as peças de museu norte-coreanas – afinal, mesmo sendo velhos, estes mísseis podem cair em áreas urbanas e matar muitos civis. Em seguida, os modernos e caros mísseis russos de alta precisão choverão sobre os alvos relevantes.

Além disso, se aparecerem 20 mísseis russos no radar ucraniano, à mesma velocidade, sendo 18 velharias norte-coreanas e dois Iskander russos, como saber quais são os de rumo aleatório e os que têm endereço certo? A única saída será gastar 20 mísseis Patriot para abater apenas dois Iskander. A idéia é esgotar o estoque dos caríssimos mísseis de defesa aérea dos ucranianos, usando porcarias que seriam jogadas no lixo muito em breve. Genial.

Mas Putin não parou aí: deu aos norte-coreanos as instruções para fabricar os mísseis russos da geração anterior – não da última geração, claro. Cedendo a Kim Jong Un uma tecnologia que já não é novidade na Europa, mas que está muito à frente da sua realidade, Putin ganha um fabricante de mísseis de médio custo e média qualidade em larga escala, com fábricas bem longe do alcance das armas ucranianas.

O tiranete de olhos puxados está felicíssimo. Poderá usar a tecnologia de controle de vôo dos mísseis russos para melhorar muito o alcance e precisão dos seus supostos mísseis nucleares de médio alcance. Se ele conseguir, Putin ficará felicíssimo. Uma guerra total na Coréia é tudo o que ele precisa para complicar a vida dos americanos e secar a ajuda militar à Ucrânia.


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