Delta não é mais b² – 4ac

Delta não é mais b² – 4ac

Não, você não pode! Você não pode olhar para uma parede pintada com a cor vermelho cardinal Suvinil, e dizer que, na sua opinião, ela está pintada na cor azul intelectual da Coral, por mais que se ache um intelectual, ou até mesmo que seja um. Certas máximas não podem ser relativizadas, como a correção da fórmula de Bhaskara, que deu um irreverente nome ao presente escrito.

Da mesma forma, não é possível dizer que o dia não é dia, e que a noite não é noite. Não, você não pode sustentar isso! Não é possível dizer que o sol não emite luz e calor, como não é possível dizer que o fundo dos oceanos não é frio e escuro. Você também não pode defender essa insanidade!

Vivemos em tempos estranhos, em que o relativismo torna a palavra “depende” uma regra… Muitas coisas são, de fato, questionáveis, portanto, não são verdades absolutas, e a inteligência e a boa vontade humana podem – e devem – provocar discussões válidas, para definir ou redefinir conceitos. Não se pode, contudo, questionar elementos que estão postos, sem a devida fundamentação, dando explicações baseadas no que se chamou de “achismo”, cuja hermenêutica lembraria a letra de uma música dos Titãs, composta por Arnaldo Antunes, que nos falava que “o que não é o que não pode ser que não é”. Muitos debates que se dão nos dias atuais lembram bem esse trecho da citada música, que nunca foi tão contemporânea.

Recentemente, inclusive, vimos uma ministra dizer que o Black Hole, ou Buraco Negro, não deveria mais ser chamado assim, por razões absolutamente injustificáveis e sem sentido. Frise-se, o nome tem ligação com o fato de que ele traga tudo, inclusive a luz, razão pela qual recebe esse nome, não só no Brasil, mas em todo o mundo. Entretanto, segundo a ótica miope de uma pessoa, o que é cristalizado cientificamente poderia ser mudado em razão de um “achismo” preconceituoso e histérico.

Ninguém é obrigado a concordar com ninguém em temas que comportam dilação de opiniões, claro. Mas, você não pode relativizar conceitos que não podem ser distendidos ao bel prazer da sua posição de interlocutor.

As noções de gratidão, de honra, de lealdade, de moral, ética, de amizade, de amor à vida e a honestidade, dentre outras, não podem, sob qualquer argumento, serem relativizadas. Não, você não pode fazer isso!

A humanidade trilhou seus rumos por milênios, e sempre teve certas questões bastante cristalizadas, mas, lamentavelmente, nesses sombrios tempos em que a informação – boa ou ruim – se movimenta nas redes, num teclar nos celulares, quase tudo passou a ser relativizado, sob o argumento de que certos conceitos muito caros não devem ser sustentados mais, por não serem “o que não pode ser que não é”.

Aliás, a falta de justificativa plausível, a falta de fundamentação real, criam uma paranóia coletiva, na qual tudo se questiona, sem, contudo, se justificar tais questionamentos, sob aspectos lógicos e concatenados. Não paramos mais para pensar se aquilo é bom ou ruim, mas, por um suposto direito a opinião, podemos manifestar toda e qualquer “opinião”, ainda que sem qualquer lastro ou justificativa, podendo-se chegar a maluquice de discordar do matemático Bhaskara, por ter direito a emitir uma “sagrada” opinião. Ao menos que se demonstre que esse gênio estava errado, não, você não pode agir dessa forma!

Enfim, a sociedade está se tornando melhor, mais forte? O mundo em que vivemos está se tornando mais fraterno, mais digno, mais pacífico? Lamentavelmente não, estamos regredindo, justamente pela flexibilização de valores que nos trouxeram até aqui, que deveriam ter sido cultuados até os dias de hoje, sem qualquer flexibilização.

Por mais que você se ache intelectual, uma parede vermelha sempre será vermelha, e não azul, ainda que você justifique sua opinião sob o argumento de que “o que não é o que não pode ser que não é”. Mesmo discordando da realidade, ela persiste, e não sucumbe diante de opiniões, pois você não pode sustentar, jamais, que uma parede pintada de vermelho, é azul. Não, você não pode!

Por Alessandro Teixeira
Advogado inscrito na OAB/MG


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