Economia e costumes afetam popularidade de Lula entre católicos

Economia e costumes afetam popularidade de Lula entre católicos

A redução de popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entre os católicos indica que a insatisfação com o petista já ultrapassa os eleitores oposicionistas e atinge a própria base do governo. A inflação registrada nos alimentos e o posicionamento de Lula sobre o aborto podem ser indicativos que ajudem a explicar o distanciamento do segmento religioso com o petista.

A queda registrada pelo levantamento do DataPoder, publicado no domingo (31), é expressiva: 52% dos católicos dizem que o petista é “melhor” que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Em janeiro deste ano, o percentual era de 59%, uma queda de sete pontos percentuais. Os que consideram “pior” somaram 34%, antes eram 33%. Já os que consideram “igual” saíram de 6% para 13%.

Os dados foram coletados entre os dias 23 e 25 de março por meio de ligações para celulares. Foram 2.500 entrevistas em 202 municípios nas 27 unidades da federação. A margem de erro é de 2 pontos percentuais. O intervalo de confiança é de 95%.

Desde o início do ano, Lula tem visto sua popularidade cair após os preços dos alimentos pressionarem o bolso do cidadão. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), só este ano, em janeiro e fevereiro, a alta dos alimentos chegou a 2,95% – mais que o dobro registrado pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Em março, o índice subiu 0,36%.

Para especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo, a queda de aprovação registrada entre católicos pode sinalizar que o leque de insatisfação com o governo pode estar se ampliando de forma consistente, o que inclui grupos que até o momento se mantinham mais tolerantes em relação às mudanças do cenário econômico.

“O grau de insatisfação do mandatário ultrapassou a fronteira ideológica e já se faz sentir entre aqueles que circunstancialmente apoiaram Lula no seu retorno para o seu terceiro mandato. Eles, de alguma maneira, tinham maiores esperanças de melhoria de suas condições de vida durante essa nova administração, sobretudo em função do que ocorreu durante o primeiro mandato de Lula”, disse Elton Gomes, professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI).

Na avaliação dele, o comportamento registrado pela pesquisa indica uma frustração de uma parte do eleitorado que, assim como outros eleitores, tinha esperança em uma melhora econômica mais rápida.

Já o cientista político Adriano Cerqueira, do Ibmec de Belo Horizonte afirmou que a amostra de católicos descontentes que foi retratada na pesquisa pode indicar um desencanto geral com o governo. “Mas o presidente está no segundo ano de mandato e ainda é possível reverter isso. A questão é que a principal ação de Lula é na área econômica e o governo está ficando cada vez mais limitado na capacidade de gastos, já que os indicadores estão ruins”, explica o cientista político Adriano Cerqueira, do Ibmec de Belo Horizonte.

Pauta de costumes também pesa na popularidade de Lula

Diferentemente dos primeiros mandatos, Lula se mostrou mais aberto a aceitar que seu governo investisse em pautas progressistas contrárias ao público católico. A nota técnica emitida pelo Ministério da Saúde em fevereiro, que abolia a distinção entre aborto e antecipação do parto, foi um caso que gerou forte atrito com a comunidade católica.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e a Frente Parlamentar Católica da Câmara dos Deputados pressionaram o governo para que o documento fosse derrubado, o que acabou ocorrendo dois dias após sua publicação. No entanto, o desgaste foi sentido pelo governo.

Comentando esse aspecto, o cientista político Elton Gomes disse que, apesar de a população católica estar se reduzindo com o passar dos anos, ela ainda é um importante ativo eleitoral. “Para efeito estatístico, o protestante é majoritariamente direitista e mais conservador. Já o católico tem um comportamento diferente, apesar de votar com a esquerda. Ele também entra na categoria de eleitor indeciso, aquele que pode mudar de voto por um determinado motivo, como ações dos candidatos”, disse o cientista político.

Para o analista político Luan Sperandio, Diretor de Operações do Ranking dos Políticos, a repercussão feita pela oposição acerca de posicionamentos do governo Lula também pode explicar o aumento do desgaste entre o público católico.

“Hoje o eleitor quer sentir que o representante dele compartilha de seus valores, e há um alto grau de conservadorismo na visão de mundo dos brasileiros, o que cria um desafio do governo Lula para esse público. E, certamente, um fator de desgaste é a atuação da oposição, que tem sabido explorar esse campo de batalha de forma eficiente, engajando muito mais do que aliados do governo, especialmente quando o assunto é relacionado a costumes”, disse Sperandio.

Esquerda utilizou Teologia da Libertação para se aproximar da Igreja

A discordância sobre a pauta de costumes entre a Igreja Católica e a esquerda suscita a seguinte pergunta: por que católicos votam em Lula? A relação pode ter se originado na década de 70, momento em que o Regime Militar estava vigente no país.

Na época, a Teologia da Libertação começou a ser difundida no meio católico e pregava a resolução dos conflitos sociais pela visão marxista da luta de classes. As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), grupos ligados à Teologia da Libertação, foram vitais para que a ideologia de esquerda fosse disseminada no segmento religioso. Além disso, tiveram participação na criação do Partido dos Trabalhadores na década de 80.

Como o país passava por dificuldades políticas e econômicas, a esquerda soube aproveitar a situação para impor o discurso de luta de classes dentro do ambiente religioso, segundo analistas. Ou seja, parte dos clérigos se posicionavam contra o estamento burocrático que dominava na época com o discurso de tentar corrigir as desigualdades sociais.

Para o historiador Alex Catharino, membro do Instituto Brasileiro de Direito e Religião, a posição eleitoral do público católico está intimamente ligada à ideologização do clero ao longo dos anos.

“Infelizmente, a influência no voto católico se deve ao fato de parcela significativa do bispos, bem como muitos padres, terem a mentalidade formada nas estruturas marxistas do errôneo método sociólogo da Teologia da Libertação, contrário à perspectiva antropológica cristocêntrica que São João Paulo II e Bento XVI tentaram resgatar”, disse o historiador.

Lula faz viagens para recompor popularidade

Buscando reverter a queda de popularidade, Lula fará uma sequência de agendas fora de Brasília (DF) nesta primeira semana de abril. As viagens são para entrega e anúncio de obras. Os destinos são estratégicos: Rio de Janeiro, Pernambuco e Ceará. O primeiro, visitado por Lula já nesta terça-feira (2), é reduto eleitoral de Bolsonaro e terá o deputado Alexandre Ramagem (PL) como pré-candidato ao pleito de outubro.

Lula compareceu ao Rio de Janeiro e participou da inauguração do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), em Niterói. Também esteve presente no início das obras de dragagem da Baía de Guanabara para o Porto de Niterói.

Na quinta-feira (4), o presidente participa do lançamento da estação elevatória de Água Bruta Ipojuca e do trecho Belo Jardim-Caruaru da Adutora do Agreste Pernambucano, em Arcoverde (PE). Após o evento, ele segue para Goiana (PE), onde participará da inauguração da Fábrica de Medicamentos Hemo-8r, da Hemobrás.

Já na sexta-feira (5), a agenda é em Iguatu (CE), onde o presidente vai assinar a ordem de serviço para a implantação do ramal do Salgado. Também está prevista uma visita às obras da Ferrovia Transnordestina.

Os roteiros também representam uma mudança de prioridade do Palácio do Planalto. Em 2023, Lula encerrou o ano com viagens a 24 países. Ao todo, o petista passou 75 dias fora do Brasil. Com as eleições municipais, o governo entende que é preciso focar a presença do petista em agendas dentro do país.

Avaliando a estratégia do presidente, Sperandio afirma que o Planalto busca retomar o espaço de poder perdido nas últimas eleições. A legenda comandada por Gleisi Hoffmann (PT) não elegeu um prefeito de capital.

“Após passar o primeiro ano do mandato muito focado na agenda externa, Lula volta a viajar e olhar mais para o país porque está de olho nas eleições de 2024. Veremos o presidente como um cabo eleitoral relevante para aliados, e estar fisicamente mais próximo é simbólico em um momento estratégico para a tentativa de retomada de poder político e espaço do PT”, disse o analista.

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