Feira da aviação militar

Feira da aviação militar

Presidentes em uma feira de aviação militar são como mulheres em uma concessionária de caminhonetes.

Nenhuma das interessadas senhoras perguntará se o cardã aguenta pancada, se a tração 4X4 suporta velocidades acima de 80Km/h, se tem guincho elétrico para tirar da lama, se pode atravessar o rio sem medo de entrar água e quebrar o motor.

– Olha que gracinha, a costura do banco! Combina com a pintura!

– Tem dois porta-óculos? Um só não resolve pra mim.

O vendedor, com medo de problemas pós-venda, avisa.

– Esse modelo é mais barato, mas não tem distribuição eletrônica de tração.

Ela nem tenta fingir que entendeu. Prossegue comentando com a amiga que o farol é puxadinho feito os olhos de um bebê japonês. Negócio fechado!

Na feira de aviação, presidentes, ministros, agem da mesma forma, porém High-tech.

Da varanda da sala VIP, o presidente assiste à impressionante demonstração acrobática do F16 Block 70, com seus lançadores de fumaça nas pontas das asas riscando o céu. Aplaude. Pergunta quanto custa. Se assusta com o preço. O ministro cochicha na sua orelha que a República Bregavina comprou um lote de F16 do Baranguistão pela metade do preço. Depois a gente conversa, Excelência, longe dos vendedores. O general percebe e cutuca o almirante com quem dividirá a comissão na compra dos F16. Faça alguma coisa, marinheiro idiota…

Tarde demais. Enquanto o F16 rola lentamente pela pista em direção à sua vaga, o Sukhoi 35 troveja pela pista e decola subitamente, reto para o céu. Seus motores de vetor variável permitem que faça coisas incríveis em baixa velocidade, portanto bem mais perto e mais fácil de ser seguido pelos olhos do público. O enorme avião russo pára no céu, desce de ré na vertical. Gira no ar como se fosse um carro manobrando e finalmente desce em direção à pista, passando a meio metro do chão, fazendo poeira e grama voarem nos ternos e fardas do público boquiaberto.

O presidente de olhos arregalados puxa o general pela manga.

– Quanto custa?

Fulanov, representante da Sukhoi, e o general Beltranovich já estavam, estrategicamente, a dois passos dele. Encostam, apresentam-se. Convidam para a sala VIP onde vídeos ainda mais impressionantes são vistos na companhia das lindíssimas garçonetes que servem champanhe. Vitórias. Aviões americanos explodindo no ar. Mísseis lançados em filme acelerado para parecerem ainda mais rápidos.

– Quanto custa?

Outra surpresa. Mais barato que o tal F16 que não fez mais do que algumas piruetas no ar. E vem completo! Mísseis, bombas, munição para o canhão de 30mm. O modelo de dois lugares, para instrução dos pilotos, vai de brinde. De – gra-ça! Se o Papai Noel não fosse uma invenção do imperialismo ocidental opressor das massas proletárias, diria que Putin é o Papai Noel mergulhado em vodka.

Negócio fechado. Festa. Matérias pagas na TV. Os enormes caças russos sobrevoam a avenida no dia da independência. Ou da revolução. Não muito depois disso, a realidade bate à porta.

Os caças russos já não são robustos como eram nos anos 60. A estrutura – asas, fuselagem, leme – não suportam muitas horas de torção e esforço em vôo supersônico. Quando a eletrônica do avião começar a ficar obsoleta, um upgrade estará fora de questão, porque o avião não suporta mais horas de vôo. Antes disso, porém, outras surpresas. O enorme radar no nariz do caça russo, capaz de detectar alvos a 300Km de distância, é suscetível às modernas contramedidas eletrônicas. A tela do radar se torna um enorme borrão preto quando o piloto invasor simplesmente aperta um botão no seu painel. O computador do avião não conversa com o radar de terra, então ele não sabe onde está o inimigo, nem quantos são. Seus mísseis, antes considerados infalíveis, sofrem do mesmo mal: o pequeno radar instalado no míssil é enganado pela eletrônica do invasor. A ajuda enviada pelo radar do avião não chega ao míssil, atrapalhado pela contramedida inimiga. Dependendo apenas do seu sensor de calor, o míssil é facilmente tapeado pelas pequenas bolas de fósforo incandescente espalhadas pelo céu pelo adversário. Frustrado, o piloto pousa e recebe a notícia de que os atuadores das superfícies móveis, motores hidráulicos que movem o leme, profundores, ailerons, estão vazando. Avião preso ao chão até os russos enviarem peças novas. São caras. Muito caras. E vão demorar a chegar, porque Putin está com dificuldades de repor as peças dos seus próprios caças. Aviões formidáveis para shows aéreos. E só.

Enquanto o presidente lamenta a sua escolha pelo inimigo número um dos imperialistas americanos e dos colonialistas europeus, uma outra conversa acontece em um cantinho da feira de aviação militar. Em uma barraquinha sem graça de uma empresa sem propaganda, um israelense mostra a outro cliente um emaranhado de fios e sensores que mais parece um ferro-velho de computadores desmontados. Zero glamour.

– Está vendo isso aqui? Pendure isso em biplano da primeira guerra mundial e você vai derrubar os dois – o Sukhoi 35 e o F16 Block70.

Ele não está exagerando.

Mas a feira avança e outro presidente deslumbrado fecha negócio com os russos, sorrindo com desdém ao ver passar o seu rival, cujos velhos F5 da guerra do Vietnam não tem a menor chance contra seus novos Sukhoi35 em um combate mano-a-mano.

Mal sabe o presidente que seus Sukhoi são um esquadrão de boxeadores peso pesado, prestes a enfrentar um sniper magricela e seu fuzil de longo alcance, que não conseguem sequer enxergar.


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