Israel – soldados e cidadãos

Israel – soldados e cidadãos

Em Israel, todo cidadão é – ou será um dia – um soldado. Todos os homens passam três anos no serviço militar obrigatório. As mulheres servem por dois anos. Todos têm consciência de que a população inteira tem que estar sempre pronta para o combate. Caso contrário, o pequeno país, menor que o menor estado do Brasil (Sergipe), será rapidamente riscado do mapa. Basta uma piscadela, um pequeno erro, e algo como o ataque do dia 08 de outubro acontece.

Por este mesmo motivo, a mesma população que nutre profundo respeito e gratidão pelo seu exército, “descasca” sem dó os seus comandantes por qualquer deslize. Com a “delicadeza” que tão bem caracteriza os israelenses – chamados de “sabras”, uma frutinha doce do deserto, coberta de espinhos – qualquer cidadão cobra desempenho e perfeição de qualquer elemento do exército, do comandante da brigada ao comandante do jipe de patrulha. Não é incomum ver Dona Míriam sair da padaria, tirando o avental com gestos nervosos, para gesticular e gritar com o soldado escorado no tanque na esquina. “E daí, se está quente? Você tem que ficar dentro do tanque! Está com sede? Me peça e eu trago água gelada. Agora, entre no tanque!” Dona Míriam volta resmungando para a padaria, porque no tempo dela, os tanques não tinham ar-condicionado, e ela não tirava os olhos da alça de mira, por horas a fio sob o sol do deserto. Todos os cidadãos sabem exatamente o que podem exigir do exército, bem como as dores de fazer parte dele.

Isto posto, quero contar a você três pequenas histórias, que lustram bem a relação da população civil de Israel com o seu exército. Cada qual de uma década diferente, retiradas de um livro, de um documentário e de uma fofoca.

Schlewski!

1973. Israel é atacado no dia do Yom Kipur, quando quase todos os militares estão em suas casas. A reação é rápida e o governo convoca pelo rádio e pela TV todos os militares da ativa e todos os reservistas até 45 anos de idade. Um jipe freia bruscamente diante da casa já empoeirada pelo movimento frenético nas ruas sem calçamento. Um tenente desce do jipe com uma prancheta nas mãos, uma lista de nomes de reservistas que são urgentemente necessários em suas unidades. Ele esmurra a porta e berra o nome sublinhado.

– Schlewski!

– Estou indo!

Avisado pela TV, Leon Schlewski, paraquedista, estava pronto. Correu para a porta com uma mochila, uma submetralhadora Uzi 9mm e uma caixa de munições. O sargento olha bem para a cara do veterano, consulta sua lista e conclui:

– Você não é Nurit Schlewski.

Dois segundos de silêncio.

– Sou eu!

Uma menina sardenta, de óculos fundo de garrafa, passa pela porta quase derrubando o pai, segurando um enorme livro cheio de códigos e tabelas de decodificação. A sargento Schlewski, 19 anos, especialista em vigilância eletrônica, fluente em árabe, era essencial para escutar o rádio inimigo e antever os próximos movimentos das tropas sírias.

– Queremos ela, não você – disse o tenente.

Quanta delicadeza. Leon Schlewski ficou congelado, sem saber o que fazer. Estava mais do que pronto para trocar tiros à queima-roupa com o inimigo, como fizera em 1948 e 1967. Mas não estava pronto para ver sua menininha ir para a guerra.

– Como assim, não me querem? Estamos sob ataque! Eu vou também!

Leon falou grosso, na esperança de que o tenente respeitasse a sua patente de capitão, ainda que reformado. Agarrou-se ao fio de esperança de ir junto. Seu joelho esquerdo, arrebentado por um fragmento de granada, não o permitia correr. Mas poderia ao menos servir de segurança para a filha, bem como para as outras meninas multilíngues e entendidas de eletrônicas complicadas, como a sua pequena Nurit. A menina atirou sua mochila e seu livro de códigos para dentro de jipe e se jogou no bagageiro. Antes que Leon pudesse fazer o mesmo, o jipe arrancou, levantando poeira. Chocado, imóvel, Leon viu o jipe levar sua menininha para a guerra, enquanto ele, o paraquedista, tropa de elite do exército de Israel, ficava para trás, impotente.

O tenente ainda se deu ao trabalho de se virar para trás e mostrar nos dedos um número quatro e um cinco. Quarenta e cinco anos, limite de idade para convocação. Leon tinha 52. Depois apontou para o próprio joelho. Obviamente, o homem sabia que sua perna esquerda não se articulava, rígida como uma tábua.

Se fosse um filme de Hollywood, a mulher de Leon desceria da varanda para abraçá-lo, olhos rasos d’água, e diria que ele sempre seria o herói dela.

Mas era Hebron, não Hollywood, e a mulher de Leon, que o conheceu quando carregava caixas de munição para a unidade dele na frente de combate em 1948, simplesmente gritou da varanda:

– Saia da rua, Leon, quer ser atropelado?

Leon Schlewski manquejou de volta para o seu sofá, arrasado.

Já não se fazem soldados como antigamente

O Coronel Eitan baixou a tampa do seu laptop quando a porta do seu minúsculo escritório se abriu de repente. Uma mulher jovem em uniforme do exército entrou acompanhada de uma deputada do Knesset e outras duas mulheres em trajes civis.

– Não sabe bater na porta?

A mulher de uniforme quase fuzilou o jovem coronel com os olhos.

– Sua secretária nos deixou esperando por mais de uma hora, obviamente você tentou nos vencer pelo cansaço.

– O que vocês querem?

– Você sabe muito bem o que queremos. Minha unidade tem perdido oficiais importantes porque a iniciativa privada oferece salários dez vezes maiores. Mulheres de oficiais precisam trabalhar como burras de carga porque seus maridos não conseguem sustentar a família. E vocês do planejamento continuam dizendo que não têm dinheiro, enquanto o governo gasta bilhões nos tais “projetos secretos” que ninguém sabe o que são!

– Não temos dinheiro.

– Eitan, você é um mentiroso do c@$%¨& ! Eu devia pegar essa sua boina enfiar no seu ¨#&*!

– Ora, vá se %$@¨&, Rute! Você me vê reclamar do meu salário? Não! Eu não preciso que o exército me dê dinheiro, preciso que ele me dê um canhão melhor para o meu tanque! De que adianta ter dinheiro e morrer no primeiro minuto do combate porque os tanques russos têm um alcance maior que os nossos? A minha geração pegava carona nas estradas para chegar às unidades e ninguém reclamava, só queríamos as armas necessárias para sobreviver! A sua geração, cheia de celulares e laptops, abandona o exército porque querem dinheiro!!

A essa altura, todos gritavam palavrões ao mesmo tempo. No exército israelense, o militar é obrigado a respeitar e obedecer apenas aos seus superiores diretos. Um soldado pode mandar o general comandante de outra unidade “plantar batatas” ou qualquer outra expressão comum nas brigas de bar.

Eitan já sentia a sua úlcera estomacal doendo novamente e não tinha tempo a perder. Resolveu usar uma arma nuclear para acabar de vez com aquela confusão. Pegou sem celular, discou um número e mostrou o nome que apareceu na tela para a jovem oficial briguenta. Ela arregalou os olhos ao ver o nome – Margot Steinberg. Olhos arregalados, Rute Steinberg começou imediatamente a empurrar as companheiras para fora do escritório. Eitan era o primo preferido de sua mãe. Uma pequena queixa dele seria o suficiente para começar a terceira guerra mundial na residência dos Steinberg.

Enquanto saía, Rute ainda ouviu a voz adocicada do Coronel Eitan cancelando o lançamento do míssil nuclear.

– Olá, Margot, querida! Sim, tudo bem. Rute passou aqui para me dar um abraço. Como você está?

Chame a soldado

Rivca tinha o hábito de olhar pela janela várias vezes ao longo da noite, até dormir. Tinha um eterno receio de que terroristas atravessassem a cerca e invadissem o bairro. Dormia com a Glock debaixo do travesseiro, desde o divórcio. Era sua prioridade proteger os dois meninos pequenos. Preocupava-se também com os soldados que via no patrulhamento. Estavam bem armados, bem organizados, mas muito expostos. Seu instinto materno se condoía ao ver os rostos dos rapazes e moças, ainda abaixo dos 20 anos de idade, em seus postos de vigilância a noite toda, tensos e cansados, especialmente no frio do inverno. Fixou seus olhos na mocinha de longos cabelos ruivos postada atrás dos sacos de areia, rosto grudado ao fuzil Barak de longo alcance, varrendo o ambiente à sua frente com sua luneta de visão noturna. Mais da metade dos snipers de Israel são mulheres, por ser uma função que exige muito mais disciplina e método do que força e agressividade. Observando-a por mais alguns segundos, Rivca percebeu que algo não estava bem. A menina se mexia muito, algo que snipers não fazem.

– Benny, venha cá.

O menino se aproximou e a mãe lhe entregou uma sacola com um lanche.

– Leve para a soldado.

O menino abriu a porta, atravessou a rua e caminhou até a esquina. Rivca viu a moça falando no seu rádio, provavelmente dizendo ao resto da unidade que era apenas um garoto da vizinhança, nada ameaçador. Ela abriu a sacola, sorriu, beijou o garotinho no rosto e acenou para Rivca, sorrindo. Ela acenou de volta. Nada demais. As donas de casa israelenses, principalmente as das fronteiras, costumam enviar lanches para os soldados das patrulhas do exército. Mas algo estava errado. Rivca olhou de novo pela janela e viu que a jovem sniper não achava uma posição confortável, mexendo-se incessantemente atrás da barricada.

– Benny, venha cá.

O menino, já de pijamas, desceu do sofá.

– Volte lá e entregue este bilhete para a soldado.

Rivca acompanhou o menino repetindo o trajeto, entregando o bilhete, que dizia: “Você está bem? Quer alguma coisa?”
Benny voltou com a resposta.

– Ela disse que está com problemas de menina.

Rivca entendeu. A unidade tinha dois banheiros químicos na praça, longe dali, e provavelmente o comandante não mandaria ninguém para substituir a moça. Homens e mulheres são absolutamente iguais no exército. Ela não ousaria pedir um “break”.

Rivca vestiu seu blusão e instruiu o filho.

– Não abra a porta para ninguém, só a mamãe e a soldado podem entrar. Se o Yair acordar chorando, brinque com ele, eu não vou demorar.

Rivca caminhou até a esquina com uma cartela de analgésicos Advil.

– Boa noite, menina!

-Boa noite, senhora!

Rivca estendeu a mão, oferecendo os comprimidos. Antes que a moça pudesse agradecer, o rádio soou.

– Três, reporte.

– Tudo OK, comando. Uma moradora gentil.

Rivca quis se certificar de que tinha feito o suficiente.

– Você está bem? Precisa usar o meu banheiro?

– Não será necessário, obrigada!

O rosto da moça não confirmava a frase. Rivca conhecia este drama.

– Pode ir, bata na porta, Benny vai abrir. Abra as gavetas do armário do banheiro, você vai encontrar tudo que precisa. Eu vou ficar no seu posto.

A moça hesitou.

– Esse é o Barak, não é? Munição Lapua Magnum 338. Os primeiros chegaram na minha unidade justamente quando eu estava saindo, em 2012. Nós usávamos o M24, calibre 7,62. Sem visão noturna. Dá inveja ver o que vocês têm hoje.

A soldado entendeu que falava com alguém que tinha exercido a mesma função. Tomou coragem. Entregou-lhe o rádio, agradeceu e foi em passos apressados à casa do pequeno Benny. Rivca ajeitou-se entre os sacos de areia, certificou-se de que sabia onde destravar o fuzil e começou a olhar o horizonte pintado em verde, incrivelmente nítido, onde antes os seus olhos enxergavam somente a escuro da noite.

– Três, muito movimento na sua posição.

Rivca sentiu um frio na barriga. Não podia entregar a situação da menina.

– Hum-hum…

Silêncio por alguns segundos.

– Três, tudo ok?

– Beseder.

O comandante da patrulha percebeu que a voz não era de Michal, a sniper da unidade. Além disso, ninguém respondia “Beseder” no rádio, há uns dez anos ou mais. Expressão dos coroas, equivalente a “jóia”, “bacana”, coisa dos anos 90.

– Unidade, prontidão.

A voz do comandante gerou intensa movimentação. Faróis de jipes se acenderam na escuridão, soldados correram para postos mais recuados. Rivca não tinha escolha. Acionou o rádio.

– Três falando. Apaguem tudo e fiquem quietos, seus idiotas. Querem virar alvos para os atiradores do Hezbollah?

– Quem é você? Onde está Michal?

– Rivca Sfarad, sniper da 208, servi em Golan. Michal está na minha casa.

A voz do comandante soou irritada, enquanto as luzes se apagavam e soldados retornavam às suas posições de vigilância.

– O que ela está fazendo lá??

– Não é da sua conta.

– Volte para a sua casa e diga a ela para retornar ao posto imediatamente.

– Negativo. Não vou deixar o posto desguarnecido. Quando ela chegar, eu volto para a minha casa.

– Volte agora mesmo. Estou mandando um jipe com soldados para assumir a posição.

– Fique quieto, seu histérico! Como vamos escutar alguma coisa se mexendo na fronteira com toda essa conversa no rádio? Não mande o jipe, ele vai bloquear a minha linha de tiro. Bico calado, todos!

Para alívio de Rivca, o comandante da patrulha se acalmou.

– Cinco e seis, voltem. Luzes apagadas. Silêncio no rádio.

Pouco depois, Michal chega à barricada da esquina. Rosto lavado, cabelos presos, sorriso.

– Obrigada!

– Sempre que precisar de alguma coisa, me ligue. Escrevi meu telefone no seu bloco de senhas.

Antes de devolver o rádio, Rivca quis se certificar de que a mocinha não seria punida.

– Comando, aqui é três.

– Prossiga, três.

– Vou perguntar amanhã a Michal se está tudo bem. Se estiver tudo bem, todos ganham lanches. Se não, esqueçam.

O comandante da patrulha não poderia agradecer pelo rádio, precisava manter o rigor da disciplina. Mas respondeu de modo que Rivca entendesse.

– Beseder, três. Beseder.


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