Jéssica, sob outro enfoque

Jéssica, sob outro enfoque

A cidade de São Paulo contabiliza em média 10 casos de autoagressão e de tentativa de suicídio entre crianças e jovens de até 19 anos, correspondendo aos 6 primeiros meses de 2023 (Secretaria Municipal de Saúde). Esse número supera os dados do primeiro semestre de 2019 em 82%.

É difícil aceitar esses números, mesmo para quem não viveu de perto uma situação tão traumática.

A família contemporânea, embora se proclame possuidora de grande afetividade, esbarra nas consequências dos valores perdidos. Os pais, imbuídos de prover seus filhos dos melhores bens materiais, não dispõem de tempo para conversar com eles. Atualmente é frequente vermos casais onde o marido/esposa não é o pai/mãe biológico das crianças da casa, podendo ser até o terceiro ou quarto pai/mãe adotivos. Muitas vezes, nega-se a esse pai postiço o direito de disciplinar os filhos que não são próprios, gerando insegurança e vulnerabilidade na criança.

O enfraquecimento dos vínculos reais entre pais e filhos faz essa criança/jovem duvidar também de outros relacionamentos, afastando-a de seus pares, dos prazeres da vida, como brincar, jogar, namorar.

A juventude atual, completamente dependente da conexão virtual, não aprendeu sobre a dificuldade de um relacionamento real, que pode ser difícil, doloroso e frustrante. Relacionamentos virtuais, superficiais na grande maioria, podem facilmente ser desfeitas com um simples clique de deletar, bloquear ou excluir. Dificuldades em relacionamentos presenciais não se solucionam assim. E os conflitos com pais ou irmãos surgem até por frases agressivas, “você não serve para nada”, “você é insuportável” ou “nem deveria ter nascido”.

Todas essas coisas contribuem para o isolamento e incentivam a procura pelas redes sociais onde o jovem se refugia, consumindo futilidades, mentiras e fofocas. Sem uma orientação para uma visão crítica desses “conteúdos”, os jovens criam fantasias sobre a vida perfeita dos influenciadores, que por sua vez faturam altas somas à custa dos incautos.

Apenas para exemplificar, o vídeo no Tik Tok do What People Are Wearing #85, mostrando o filho do ministro Benedito Gonçalves em suas caríssimas roupas de grife, teve mais de 2,5 milhões de visualizações.

A agência Mynd 8, tão falada nos últimos dias, fatura 550 milhões de reais por ano, com 400 influenciadores, muitos dos quais são apenas de fofocas.

É importante que orientemos filhos e netos para um olhar crítico sobre essas mídias e saberem lidar com frustrações, reais e virtuais, pois do contrário continuaremos vendo casos tristes como o da Jéssica ou como o suicídio de uma criança de 10 anos porque não recebeu dinheiro para ir ao cinema ou outra que se matou por não ter um celular como o dos colegas.

Elisabeth Kaiser 

Médica cardiologista


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