Lições da Ucrânia – O campo de batalha mudou

Lições da Ucrânia – O campo de batalha mudou

No meio dos anos 90, meu irmão, um comandante de tanques do exército de Israel, resumiu o campo de batalha da seguinte forma: a infantaria não tem chance contra os tanques, que não têm chance contra helicópteros, que por sua vez, não têm a menor chance contra caças. Os exercícios feitos pela brigada dele contra os Marines – tropa de elite da marinha americana – comprovavam o que ele dizia. As armas de mão – fuzis de qualquer calibre, granadas de mão, até mesmo as munições auto-propelidas como o famoso RPG7 russo – não têm a menor chance de atravessar a blindagem de um tanque moderno. Nem os campos minados pela infantaria resolvem o problema, se o inimigo tiver tanques caça-minas. A solução é trazer os seus próprios tanques ou contar com helicópteros ou aviões de apoio aéreo aproximado. Um helicóptero voando a 5 metros do chão, a 300Km/h, é um alvo muito difícil de ver ou de ser detectado por radares comuns. Seus mísseis anti-tanque vão atingir os alvos bem antes dos tanques conseguirem trazer suas unidades de defesa aérea para o ponto de ataque. Mas não é fim de jogo para os tanques: aviões de caça voam 5 vezes mais rápido que os helicópteros à baixa altitude e têm radares e mísseis que acham e destroem os helicópteros bem antes destes sequer saberem que há caças na área. Assim foi, por mais de 50 anos depois da segunda guerra mundial: quem tem a melhor aviação de caça garante que seus helicópteros destruam os tanques inimigos, deixando à infantaria do outro lado uma única opção: correr.

A mudança vem no início dos anos 2000, quando o custo de produção dos mísseis começou a cair e a eficácia aumentou muito. Mísseis Stinger, lançados do ombro por um soldado de infantaria, acabaram com a vida mansa de helicópteros e aviões a baixa altura. Mísseis Javelin destroem, praticamente, qualquer tanque. Mísseis de cruzeiro como o Tomahawk levam 500kg de explosivos a 3 metros do chão, por 2400km, para atingir o alvo com uma precisão de 5 metros. (Além de serem quase indetectáveis.) Mísseis antiaéreos como os americanos Patriot ou os S400 russos conseguem interceptar um alvo do tamanho de uma bola de futebol voando a 3.000Km/h a 200km de distância. Mísseis antimísseis como o israelense Iron Dome  interceptam um objeto do tamanho de um sapato voando acima da velocidade do som. Mísseis de hipervelocidade prometem descer sobre o alvo acima de 7000km/h, impossíveis de interceptar. A energia cinética do seu choque contra o alvo é tão grande que não precisa transportar explosivos.

Até agora, russos e ucranianos ainda estão amargando as lições da invasão russa ao Afeganistão. Os ucranianos perderam 70 aviões de combate por falta de contra-medidas eletrônicas para escapar das defesas antiaéreas russas. Os russos perderam quase 200 aeronaves, somando aviões e helicópteros de todos os tipos, 85% deles atingidos por mísseis Stinger, exatamente como no Afeganistão, no final dos anos 80. A pergunta de um milhão de dólares – ou de 600.000 Km² – é: quantos Stingers os ucranianos ainda têm. Receberam 1.400 unidades. Os americanos dizem que a taxa de sucesso é de 2 disparos para cada aeronave abatida. Os russos dizem que são 5 para 1. Uma coisa é certa: se os Stingers estivessem no fim, Putin já teria toda a sua força aérea sobrevoando a Ucrânia em apoio às suas tropas.

É o fim dos aviões de combate? Veremos.

Imagem de frimufilms no Freepik


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