Linha quatro

Linha quatro

– Excelência, o presidente Nicolas Maduro na linha quatro.

Putin suspirou. Que cara insistente.

– Quantas vezes ele já ligou, Olga?

– Dezoito, Excelência. Eu já coloquei o senhor em três diferentes compromissos, mas ele continua ligando.

Putin reabasteceu o copo de Vodka e empurrou a supermodelo platinada para o outro lado do sofá. Melhor acabar logo com aquilo ou não teria sossego. Respirou fundo, armou o seu sorriso de vendedor e apertou o botão quatro no seu PABX computadorizado.

– Sim?

– Olá, Vlad!

“Vlad”. Que cara arrogante. Tratando-o como se fossem íntimos. Seria engraçado assistir Maduro desfilar a sua ridícula megalomania, achando-se no mesmo nível dos líderes das superpotências mundiais, se ele não fosse tão cansativo. Melhor acabar logo com isso.

– Olá, Nikita!

Maduro adorou saber que Nikita é o diminutivo russo para Nicolai. Era como se apresentava ao telefone quando ligava para o Kremlin.

– Vlad, você é um gênio. Acabei de ler o artigo do “El Día”. Tudo faz sentido agora. Você, os iranianos, os norte-coreanos, os chineses, todos pressionando juntos. Estão amarrando quatro braços do polvo imperialista americano! Se todos atacarem juntos, os porcos capitalistas não terão como defender quatro das suas colônias ao mesmo tempo. Genial!

– Obrigado.

– E eu tenho uma ótima notícia: a Venezuela vai amarrar o quinto braço do polvo! Vou invadir a Guiana, este quintal da CIA na América Latina. Só preciso que você me mande um estoque extra de munições e peças de reposição para os blindados e para os aviões e helicópteros.
Putin cobriu o rosto com as mãos, em profundo desânimo. Respirou fundo e respondeu.

– Olha, Nicky… não faça isso.

– Porquê não??

Maduro estava surpreso. Estava se dispondo a ajudar o eixo das nações libertárias do mundo a sacudir os grilhões do monstro capitalista… e Putin disse não?

Longo e incômodo silêncio.

– Nikita, eu sei que você está precisando de dinheiro para dar aumento ao seu exército, manter o chão debaixo dos seus pés. Pagar 1.200 generais não é fácil. Eu tenho 185 e já está difícil! Eu avisei que não era uma boa idéia promover todo mundo que olhar torto para você.

– Sim, mas é preciso formar uma base de segurança. Agora que meu governo está estabilizado, é hora de avançar, Vlad! Vamos abalar a Casa Branca!

Outro profundo suspiro.

– Nicky, escute: não faça isso. De que adianta ter mais área para retirar petróleo? Você não consegue retirar o seu próprio! Seu país vende menos de 10% do petróleo que vendia há 30 anos atrás. Vai ser uma guerra cara e sem retorno.

– Não importa, Vlad, será uma vitória retumbante contra os imperialistas americanos, que me dará sustentação política pelo resto da vida.

– Nicky, não insista, eu não vou poder ajudá-lo.

– Como não?? Os chineses me venderam um monte de porcarias baratas, mas você não! Me enviou o melhor da tecnologia militar do planeta! E me garantiu suprimento ilimitado de peças e munições!

Agora a conversa estava ficando constrangedora.

– Sim, Nicky, mas eram outros tempos, eu não estava em guerra com a Ucrânia, digo, com a OTAN na Ucrânia. Minha munição se esgotou, estou comprando dos coreanos para manter meu exército funcionando. Não posso te enviar nada agora.

– Faça um esforço, Vlad, eu posso te mandar petróleo.

– Não preciso do seu petróleo. Sou um dos maiores vendedores de petróleo e gás do mundo. Preciso é de clientes! Meus estoques estão transbordando e minha conta bancária está vazia. Era isso que você queria ouvir? Pronto, está dito.

Putin estava irritado e Maduro percebeu.

– Camarada, na verdade não preciso de muita coisa. Minha força aérea pode aplastar a Guiana em duas horas de combate. Só preciso colocar meus caças Sukhoi e meus helicópteros Mi35 em vôo. Aquela listinha de peças que eu te enviei pelo Whatsapp.

– Como é que eu vou te dizer isso…

– Isso o quê?

– Vamos lá: a indústria aeronáutica russa já não produz do mesmo jeito. Meus Mi27 dos anos 70 estão voando até hoje. Mas para vender para você, no preço que você poderia pagar, tivemos que usar materiais mais baratos, simplificar algumas coisas, etc. Não vai adiantar nada mandar aquela lista de peças – se eu tivesse para mandar.

– Mas são helicópteros russos Mikoian-Gurevich! Tanques voadores!

– Sim , mas… lembra-se daqueles Mi35 que vendi para o camarada Lula em 2008?

– Sim, estou tentando comprar para retirar as peças que eu preciso, mas eles não me respondem. Já lotei a caixa de mensagens deles e nada.

– Pois é. Os meus ainda estão voando, há mais de 50 anos. Os que Lula comprou já estão virando monumentos nas portarias das bases da FAB. Duraram sete anos. Um ou outro durou dez anos e depois, fim. Repito: não compre, as peças que você quer retirar deles já são sucata.

– Certo… Mas os Sukhoi vão voar! Vão arrasar as tropas inimigas!

Por pouco tempo. Se voarem – pensou Putin.

– Nicky, você não consegue acertar um alvo pequeno como um blindado voando em velocidades supersônicas e em alta altitude. Você precisa voar baixo e lento. A não ser que você tenha bombas guiadas a laser e gente iluminando os alvos com laser, etc, etc. Tudo aquilo que você achou caro demais. Se os Sukhoi voarem lentos e perto do chão, serão destruídos.

– Duvido! A Guiana não tem defesas antiaéreas.

– Não? Em quantas horas você acha que a CIA entrega a eles uma carga de mísseis Stinger, sem votação no congresso americano, sem autorização de generais?

– Mas eu posso despejar bombas lá de cima, de 10.000 metros!

– Ah, que ótimo! E que efeito você acha que tem uma bomba de 500 kilos caindo em um pântano? Mata os 10 soldados que derem o azar de estar bem debaixo dela, o resto vai tomar um banho de água suja e lama, que beleza! Você precisa de aeronaves de apoio próximo.

– Então me mande os Sukhoi 25 que você me vendeu!

Era a vez de Maduro ficar irritado.

– E que você não pagou, esqueceu?

– OK, eu pago hoje mesmo, mas mande os aviões.

– Não posso. Estão todos na Ucrânia.

Silêncio.

-Vlad, então me ajude com os chineses. Ligue para o camarada Xi. Os blindados que comprei deles estão com vazamentos de óleo, as suspensões enferrujam, os pneus se desmancham com poucos quilômetros.

– E eu não sei? Eu também comprei pneus deles. Estou cheio de blindados leves parados na Ucrânia porque os chineses me venderam pneus que não duram uma semana. E a Michelin quer me cobrar um preço absurdo por pneus novos. Sem falar no risco de pagar e não receber, por interferência do governo francês.

– E o que eu faço, então?

Putin tampou o fone com a mão e cochichou para a modelo platinada seminua.

– É isso que dá colocar um motorista de ônibus para dirigir uma país!

Putin tomou fôlego, olhou no relógio. Já tinha perdido o começo do jogo do Spartak de Moscou.

– Nikita, você é um homem inteligente, simpático e convincente. Ligue para o Irfaan e…

– Irfaan?

Putin travou a respiração por dois segundos para não gritar.

– Irfaan Ali, presidente da Guiana.

– Ah, sim.

– Ligue para ele e conversem. Tenho certeza que você vai conseguir alguma coisa sem gastar nem um tostão. Ele se borra de medo de você. Vai dar certo.

Maduro sorriu sarcasticamente, seu ego acariciado pelo ditador da Rússia.

– Ele e todo o resto da América Latina!

– Sem dúvida! É por isso que meu ponto de apoio nas Américas é você! Você é o cara!

Os dois trocaram mais alguns afagos verbais e Putin finalmente aumentou o volume da TV.

– Nicky, o jogo já começou, me ligue depois! Mais alguns dias e tudo estará melhor por aqui, vou poder ajudá-lo com certeza! Abraço!

Pip – pip – pip – pip…


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