Não quero ser um “jornalista corajoso”

Não quero ser um “jornalista corajoso”

Eu não sou jor-na-lis-ta. Sou jornalista, tenho uma profissão como tantas outras, nem pior, nem melhor, apenas necessária. Não é meu papel procurar ser um catequizador, um transformador, um “consertador”, um professor, um educador, um tutor. Não trabalho para mudar as pessoas, o mundo, para fazê-los evoluir. Se isso for uma consequência natural da minha atuação, ótimo, mas meu objetivo é muito simples: encontrar as melhores histórias reais e em movimento, apurá-las com honestidade, ética, com extremo cuidado e equilíbrio e contá-las da melhor forma possível. E não falo apenas da novidade, do raro, incomum, extraordinário, ainda que isso tudo me interesse também. A ideia é sempre me entregar avidamente aos fatos, não me deixar pautar por nada que não seja a busca pela verdade, para agregar informações verificadas, e verificadas de novo, capazes de atrair o interesse de um grupo considerável de pessoas.

Ouvir todos os lados da história, conseguir enxergá-la por vários ângulos, sem assumir um papel de personagem dela, isso é básico. Não há como buscar a verdade, se não for assim. Portanto, trilhar esse caminho inescapável sem humildade é impossível. Não importa o que cada um faça na sua vida profissional e pessoal, se não formos humildes, estaremos fadados a cometer uma série de erros, de equívocos, de injustiças. O jornalista, mais do que outros profissionais talvez, não pode jamais abrir mão da humildade. E é muito fácil entender por quê. Aquele que não é humilde cria um mundo particular, se acha detentor do correto, do certo, lidando com “verdades próprias”, o que é imperdoável. Um jornalista que se opõe ao mundo real, às experiências já vividas, que abre mão da curiosidade, da desconfiança, que prefere não questionar, não duvidar, não perguntar, não contestar, ele não é um jornalista.

Um país em que o jornalista precisa ter coragem para simplesmente buscar e divulgar a verdade não é livre, não é realmente uma democracia

A estrela deve ser sempre a informação, não quem a transmite. A vaidade, a soberba, a prepotência e a arrogância são, digamos, um erro de inteligência. E o que é inteligência, no fim das contas? É a capacidade de perceber a verdade. Longe da verdade não há liberdade, longe da verdade não há jornalismo. Uma pessoa inteligente é, necessariamente, uma pessoa humilde. Quem não é humilde vai sempre distorcer a realidade, já que ignora as referências corretas, já que enxerga tudo como deseja. Alguém que se entrega a ilusões, a mentiras, a fantasias é alguém que aceita ser enganado – por si próprio e por outros –, e, para piorar, que também aceita enganar. É preciso ter compromisso com os fatos; a notícia não pode modificar os fatos. Um jornalista que é escravo de uma causa é refém de si mesmo, dos seus interesses, ele não é jornalista. Se trabalha, então, por uma utopia, por algo que sempre deu errado, se defende o irrealizável, o impossível, como pretende ter credibilidade?

Ninguém deve se pressupor infalível, jornalistas incluídos, claro. As críticas e as indicações de erros cometidos podem conduzir a correções, a retratações. Não há problema nenhum nisso. Críticas bem fundamentadas são importantes, assim como os aplausos merecidos. Não sou movido a elogios, mas fico feliz quando reconhecem meu trabalho. Só que um elogio especificamente tem me incomodado um pouco… Gostaria de não ser chamado de “jornalista corajoso…” Nessa minha profissão, vá lá, em algumas situações, uma pitada de ousadia e coragem é necessária. A questão é que um país em que o jornalista precisa ter coragem para simplesmente buscar e divulgar a verdade não é livre, não é realmente uma democracia.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos

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