O câncer ideológico e suas metástases

O câncer ideológico e suas metástases

Quem já conviveu com o câncer, direta ou indiretamente, aprendeu a lidar com palavras estranhas, como metástase e recidiva. A primeira, em termos populares, diz respeito às ramificações projetadas a partir do tumor canceroso principal, que acometem outros órgãos do corpo, complicando o tratamento. A segunda reporta-se à potencialidade de retorno da doença, quando aparentemente curada.

Mas não é do terrível câncer físico que falaremos hoje, mas de um muito pior: o ideológico.

Não estou sentado ao seu lado, caro leitor, e talvez nem o conheça ou as particularidades de sua vida, mas posso fazer afirmativas que o farão suspeitar da fragilidade de sua privacidade.

Eu sei, por exemplo, que você possui uma parente ou conhecida jovem cujo corpo está bastante tatuado, que é vegetariana ou vegana, defende pautas feministas, como o movimento pró aborto, é bonita, mas se apresenta desleixada, não possui definição de preferência sexual e até se diz “binária”, apoia claramente o movimento LGBTQIA+, lembra do aquecimento global todas as vezes que o dia está quente, não quer formar família própria e seu maior prazer na vida é fazer viagens.

Lembrou de alguém que preenche, ao menos, 90% disso tudo. Não é?

Não, não precisa se preocupar! Não estou espionando sua vida, mas demonstrando que o estereótipo é de tal modo padronizado, que fica fácil fazer uma espécie de “checklist” e já possui até nome auto atribuído: cultura Woke (veja na Wikipedia o significa isso).

A pergunta que deve surgir a partir dessa constatação é: se há tantas expressões e ramificações – metástases – dessa “cultura moderna”, qual é a fonte de tudo isso?

A pretexto de acabar com a tirania absolutista dos monarcas emergiu a principal revolução política da era contemporânea: a Revolução Francesa – e não digo que a tirania absolutista não existiu, mas associar monarquia com absolutismo e tirania foi um dos primeiros investimentos ideológicos subliminares já feitos, pois ao lembrar de qualquer sistema monárquico, inclusive os mais fraternos e bem-sucedidos, o indivíduo comum já vê brotar em sua mente várias expressões pejorativas, dentre as quais as citadas.

Sob os lemas de liberdade, igualdade e fraternidade, houve instauração de estado de exceção que teve por fim a aniquilação de todos os opositores, figurando-se a guilhotina, segundo a lenda, como instrumento caritativo opcional ao enforcamento para que a vítima política sentisse menos dor em sua execução.

Como se repetiu posteriormente em diversas revoluções políticas futuras, os lemas benévolos e elevados se contrastaram com as atitudes nefastas daqueles que os defendiam. Um dos revolucionários franceses, por exemplo, chegou a expressar o seguinte desejo ardente “eu gostaria que o último rei fosse estrangulado com as tripas do último padre”.

A metodologia sempre foi a mesma: reúnem-se os grupos apoiadores da causa sob uma única bandeira e, após, ao conquistar o objetivo maior, os grupos revolucionários disputam entre si os espólios, aniquilando-se reciprocamente.

E não importa o tipo de tirania: sempre haverá o dividir para conquistar (maniqueísmo) e a fragmentação posterior das facções. Na Revolução Russa, Bolcheviques, Mencheviques e apoiadores da revolução formaram um bloco que dizia ser o defensor do proletariado, mas assim que o assassinato dos Romanov ocorreu, um a um os grupos foram se enfrentando, prevalecendo o mais radical e bruto. E a história todos conhecem, ou deveriam conhecer. Os Gulags e a KGB que o digam.

Poderia falar de outras revoluções políticas e sanguinárias que tiveram resultantes semelhantes em relação aos grupos outrora unidos, citando “A Noite das Adagas Afiadas” na Alemanha, por exemplo, mas vocês já começaram a entender onde quero chegar: o real destino da revolução político-econômico-cultural em curso.

Num mundo, em tese, mais civilizado, certamente os métodos mais “tradicionais” dos revolucionários políticos tiveram que se alterar. A partir das bases fincadas por Antonio Gramsci (vejam na Wikipédia quem ele é e quem ele influenciou), verificou-se que determinados elementos culturais seriam empecilhos para a implantação da proposta marxista no mundo ocidental. Depois da falácia da divisão entre proletários e donos dos meios de produção (já que rapidamente os revolucionários se apropriaram desses meios e os entregaram para os seus capitalistas preferidos), houve necessidade de elevar o conceito de luta de classes a outro patamar.

E já que o texto ficou muito longo, vou resumir: não será fácil, para desestabilizar as balizas agregadoras, implementar uma versão diversificada e multiplicada da “boa” e “velha” luta de classes? Sempre deu certo: jacobinos e girondinos, patrão e proletário, bolchevique e menchevique, alemães e judeus e por aí vai. E “bora” dobrar a meta? E depois triplicar?

Observe à sua volta: filhos x pais, tatuados x não tatuados, brancos x negros, mulheres x homens, LGBTQIA+ x héteros, feminismo x machos, laicos x religiosos, “aquecimentistas globais” x geógrafos estudiosos, aborto e vida, vacinados x não vacinados, coletivos x indivíduos, maconheiros x sóbrios, nacionalistas x globalistas, veganos x carnívoros, etc. Mais fácil calcular as casas decimais do número pi que o número de “opositores” artificialmente provocado.

É por isso que o discurso marxista-gramscista “et al” insiste tanto nos conceitos de “consciência de classe” e de “luta de classes” projetando-os sobre todos: isso desestabiliza os alicerces da união fraternal, dentre os quais Deus, pátria, família, indivíduo.

E destruído isso – ou “desconstruído” – eufemismo politicamente correto para a mesma coisa, o caminho fica fácil para o domínio e o poder que, como já mostrou a história, pouco se importa com as peças do quebra-cabeças que lhe serviu de instrumento para chegar lá. Isso é o que eles chamam de progressismo: terra arrasada para construção de um mundo que só encontra virtude no slogan-tema do canto da sereia.

Mudaram-se os meios, mas os fins são os mesmos.

Para entender mais essas contradições, leiam a obra “1984”, de George Orwell, e descubram que os significantes “amor”, “verdade” e “democracia”, possuem significado diferente na mente político-revolucionária.


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