O imaginário e o coletivismo

O imaginário e o coletivismo

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Numa festança de aniversário de uma querida amiga que, para felicidade dos convidados, quase todos da geração X e adjacências, contratou uma banda especializada nos “hits” dos anos oitenta, me surpreendi intimamente ao fazer algo que não fazia no passado: prestar atenção nas letras das músicas em plena pista de dança.

Claro, conhecia todas elas e as cantava em voz alta, mas nunca me importei com o que informam diretamente. O ritmo e o poder de algumas frases isoladas e refrões inflamados de indignação já bastavam à lembrança de minha juventude inconscientemente rebelde.

Quase todas, percebi, tinham viés de revolução política e, obviamente, elaboradas por jovens adultos crescidos ao ativismo contrário ao período militar – dado ser o momento de transição política – possuíam conteúdo marxista notório. Uma delas, da banda “Plebe Rude”, de nome “Até quando esperar”, do álbum “O concreto já rachou”, é uma verdadeira sopa de princípios socialistas/comunistas.

Começa tratando de uma culpa inata por aqueles abençoados por não terem nascido pobres, apresentando os tortuosos conceitos de privilégio e soma zero, em que a pobreza é causada por uma “desigualdade de distribuição”, indicando o Estado como o dono e injusto distribuidor das fatias desiguais de um bolo finito de riquezas que já nasceram prontas sem qualquer esforço. Informa que você não tem culpa da fatia recebida na infância, mas que isso não é uma desculpa para manter isso. Indaga, na sequência, que fração do bolo você pegou, já que “há tanta riqueza por aí”. Critica a caridade e a fé, negando a existência de Deus, cuja ajuda é requisitada, mas nunca chega.

Fico pensando como esses conceitos pueris ainda hoje conseguem penetrar com tanta facilidade o inconsciente das gerações X, Y e Z a ponto de causar aquilo que todos os oposicionistas já sabem: a maioria das pessoas que se dizem isentas, no final das contas acaba por votar nos socialistas/comunistas, esquecendo da história antiga e atual, que mostra a falácia, a corrupção e o desastre (em todos os níveis) que esse tipo de sistema invariavelmente causa, prejudicando, sobretudo, aqueles que são apontados como vulneráveis.

Não que as gerações dos “Boomers” e anteriores não tivessem seus revolucionários, mas, em regra geral, esses sabiam o que realmente queriam e defendiam. Não eram majoritariamente alienados inconscientes como as gerações que lhes sucederam. Observe-se que muitos “tios e tias do Whatsapp”, e a grande maioria dos presentes nos eventos “da direita”, é composta de ilustríssimos e empenhados idosos dessas gerações, que sabem muito bem o que querem e o que não querem.

E uma das causas disso, senão a principal, é como se deu a formação do imaginário, do “menu” de modelos referenciais havidos na formação pessoal individual.

As gerações anteriores aos “Baby Boomers” – nome atribuído àqueles nascidos na explosão demográfica pós II guerra mundial – tinham como referenciais os modelos materiais e psicológicos apresentados pela sua enorme e próxima família que, por si, também era integrada na hierarquia de comunidades em que se situava. A par disso, à míngua de mídias coletivas padronizadas, o entretenimento, além das profundas conversas diretas e fatos observados, vinha através da literatura. Bons livros são descritivos, de modo que o leitor se insere na história, identifica-se com personagens e efetivamente vivencia algo diferente de sua própria vivência habitual.

O culto do nada (niilismo), do estado de natureza, da negação da espiritualidade e da divindade, do materialismo econômico, representado pelo uso de drogas, da prática sexo descomprometido e irresponsável, dentre outros, foi desencadeado às massas pelos rebeldes Baby Boomers, já influenciados pelas mídias de massa em operação, sobretudo rádio e televisão. Veja-se, por exemplo, o movimento hippie. 

Desde então tudo o que foi apresentado pelo rádio, televisão, internet e respectivas mídias, que requintada e velozmente repetiu essas mazelas, substituiu o rico menu do imaginário por cardápio paupérrimo, representado pelos insossos temas do coletivismo. As comunicações de propaganda e convencimento em massa, tão aperfeiçoadas pelos comunistas e nazistas, passaram a ser usadas em grande intensidade.

A enorme distância entre o bem e o mal, o “felicitante” e o “infelicitante”, foi resumida a ideias e frases prontas, indutivas e maniqueistas, afastando a pessoa de sua realidade pessoal e possibilidades objetivas.  A substância imaginária que permitia ao indivíduo nortear-se dentre milhares de tipos de personalidades, escolhas e modelos a fim de encontrar os seus próprios foi substituída por “combos” prontos, indicados como perfeitos e corretos, bastando a ele escolher um e aplicar irrefletidamente em sua vida, sob a falsa promessa de torná-la rapidamente feliz, socialmente aceita e politicamente correta. 

Sim, leitor que já acordou, é a estratégia perfeita para implantação de regimes autoritários e estatizantes, pois permite identificar – e eliminar – aqueles que não aceitam os grandes padrões impostos pelos que, no final, desejam o poder real que, em grossa síntese, é ora conceituado como capacidade de um ou mais indivíduos de fazer prevalecer suas ideias e vontades sobre os outros.

Não há uma panaceia específica que cure esse mal. 

Arrisco, contudo, sugerir que o abastecimento do imaginário, por meio de esforço puramente individual em busca de boas obras literárias, pode ser um bom início. Eu próprio, confesso, jamais conseguiria perceber e entrar no âmago real nas letras das músicas a que me reportei no início desse artigo se não fosse a busca de alimento para este esquálido imaginário de quem cresceu vendo televisão. Não fosse isso, continuaria repetindo as letras decoradas, num conhecimento só de casca, sem qualquer tipo de substância. E em que nível de percepção conseguirei chegar? Nem especulo, mas uma coisa é certa: a lupa tende a aumentar.

E finalizo antecipando, talvez, uma pergunta do leitor: – E qual a vantagem disso?

Respondo me inspirando numa frase do personagem Morpheus, no primeiro filme da saga Matrix (o único que presta): – Apenas posso garantir a percepção da realidade, mas não garanto que você vai gostar dela e tampouco que sua vida permanecerá igual.


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