O imiscível e o profano

O imiscível e o profano

A tendência humana de observar a natureza, notadamente os efeitos do pêndulo, que encontra equilíbrio na exata metade do caminho entre os extremos do percurso, faz com que se acredite que, em tudo, a metade do caminho representaria a harmonia e a sabedoria.

Certamente, a dialética socrática também busca situar a verdade entre os extremos tese-antítese; mas admite que o verdadeiro possa se localizar mais próximo de um dos lados, ou até inteiramente a ele, pelo menos até que surja um interlocutor capaz de se contrapor de modo eficiente.

Para complicar, a sofística – em seu sentido pejorativo – se encarregou da anarquia, desbalanceando as equações ao trazer o verbalismo argumentativo desprovido de lastro, mas aparentemente lógico.

Em tempos atuais, em que o maniqueísmo brasileiro busca situar um lado como “terraplanista” e o outro como “passapanista”, parece lógico, e mesmo louvável, assumir a postura do pêndulo do primeiro parágrafo acima, arvorando-se acima dos “afegãos médios”, que “gastam seu tempo em contendas inúteis”.

O Sr. Isento – alcunha que atribuo àqueles que se colocaram acima de tudo e todos – apresenta-se como “a grande síntese” em todas as discussões. Frequentemente, contudo, é apenas um pobre arrogante que não despertou para o que acontece na sala de estar de sua própria casa, mas que, nas poucas ocasiões em que se manifesta, gosta de ser visto como um sábio monge na posição de flor-de-lótus, absolutamente “zen” (com a “zen-noção” da própria ignorância e do mal que fomenta).

O termo “imiscível” dá significado ao fato de que certos elementos não se misturam. O significante “profano” reporta-se àquilo que se contrapõe ao que é sagrado.

Os tempos atuais, sobretudo os pós-pandemia, têm reiteradamente convidado a cada um a posicionar-se humanamente, a fazer escolhas em questões que, por sua própria natureza, são imiscíveis, preservando aquelas sagradas.

O Sr. Isento, ao considerar que tudo pode se misturar até chegar ao ponto central, olvida que sua atitude se torna profana, pois sacrifica o sagrado – valores que ele próprio considera verdadeiros – a pretexto de encontrar equilíbrio misturando-o com o que ele próprio define como imprestável ou deletério.

Os espectros políticos definem-se não pelos elementos que são miscíveis, mas por aqueles que são imiscíveis. É por isso que o chamado “centrão” nada mais é do que um monte de nada, mas ganha valor numa sociedade democrática pela sua corrupta capacidade de ser e não ser ao mesmo tempo, conforme a conveniência da vez.

Numa sociedade amadurecida, os isentos são espécies em extinção, dado que, os próprios extremos, naquilo que é possível negociar até chegar a um meio-termo, já o fazem. Mas, naquilo que consideram sagrado não há negociação, daí a disputa de prevalência pelo voto, em regimes democráticos, ou pela força, quando a democracia mostra suas falhas.

Um Estado gigante, que se põe acima da sociedade e dos indivíduos que a compõem, exige impostos altíssimos, já que ele, em si, nada produz, mas precisa sustentar seu inchaço. Esse mesmo Estado, a pretexto de homogeneidade, entrará na vida privada e na cultura, dizendo o que é aprovável ou não na conduta de cada um. Dirá o que é belo ou feio, honesto ou desonesto, louvável ou execrável, válido ou inválido, e por aí vai. E parecerá perfeito enquanto perdurar seu insaciável, e sempre revolucionário, ciclo de implantação “de fora para dentro”, que invariavelmente falece sem nunca chegar ao auge, pois exaure as suas raízes (indivíduos) que apenas conseguem sustentar suas estruturas até o dia em que se descobrem escravos fatigados. Foi assim, é assim, e sempre será assim.

Já um estado pequeno, que pertence e serve à sociedade que, por sua vez, é formada pelos indivíduos, jamais exigirá altos custos para ser mantido. Não terá condições, ou legitimidade, para entrar na vida privada de qualquer pessoa, senão excepcionalmente para impedir os excessos de cada um no exercício de seu modo de viver, que é livre, desde que não afronte os direitos e a liberdade do outro. Talvez não seja tão belo e homogêneo, dado que respeitará os gostos e as diferenças, que sempre serão variados. Haverá, nele, tantas desigualdades quanto pessoas, pelos mesmos motivos. Não viverá de esperança no futuro, já que é composto por indivíduos que valorizam o presente, a ponto de naturalmente edificarem o progresso real, sem idealizações tirânicas. A dor e sofrimento que forem derivados dos abusos individuais sobre os direitos alheios reduzirão naturalmente na medida em que o esclarecimento e o senso de humanidade e de fraternidade emergirem de dentro para fora.

Por isso, caro leitor, é risível reclamar da falta de liberdade, impostos altos e centralizados do governo central, desrespeito às diferenças, desvalorização do trabalho e da família, ausência de progresso mensurável, violação de valores culturais que consideramos sagrados, se, afinal, nossas escolhas “politicamente corretas” (segundo o definido pelo grande Estado) insistirem em misturar o que é logicamente imiscível, profanando os valores e os sonhos que nos são mais sagrados.

A semeadura é livre, a colheita é decorrente.


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