Problema tamanho XGG – Xisto, gás e guerra – Conflitos geopolíticos de energia

Problema tamanho XGG – Xisto, gás e guerra – Conflitos geopolíticos de energia

Explore a complexa teia de conflitos geopolíticos de energia envolvendo Rússia, Oriente Médio e Europa. Saiba como essas questões afetam a estabilidade global.

O problema no oriente não é pequeno nem localizado. Vai dos túneis de Gaza ao Salão Oval. Do Kremlin aos minaretes de Teeran. Passa pela Ucrânia, pelo Mar do Norte, pela costa do Líbano. No fim, tudo faz parte de um único quadro, um complexo problema-polvo com seus oito longos braços. Sim, há radicalismo religioso envolvido. Sim, há antigas rixas e mágoas regionais. Mas o que embrulha tudo isso em um pacote só é, como sempre… Dinheiro.

Nos parágrafos seguintes discorrerei sobre assuntos que parecem não ter ligação entre si. Ao final, você entenderá porquê estão na mesma página.

NORDSTREAM

Fim da União Soviética, economia em pedaços. Putin sobe ao poder através da simbiose criminosa com os oligarcas que ele mesmo criou. A principal fonte de renda da nova Rússia é o petróleo e o gás combustível vendido pela estatal GasProm à Europa para movimentar tudo – carros, indústrias, termoelétricas, aquecimento residencial. Ávidos pelo lucro, os russos reinvestem pouco no seu parque industrial que logo fica obsoleto e caro de manter. Solução? Aumentar a quantidade gás vendido à Europa. Matar a concorrência árabe. (Sim, nos dois sentidos.) Para isso, a GasProm amplia o seu principal gasoduto para a Europa, o Nordstream, e inicia as obras do Nordstream 2.

Agora, é hora de baixar os custos, fazendo seus tubos de gás passarem por menos estados cobradores de impostos, que encarecem o produto. E negociar estes impostos. A linha reta em direção à Europa é através da Ucrânia. O problema é que a Ucrânia não quer gente da Gasprom trabalhando em solo ucraniano. Espionagem, sabotagem nas instalações de gás natural ucraniano, aumento preocupante de seguranças armados russos, tudo isso veio junto com os gasodutos da Gasprom. Julia Timoschenko, primeira-ministra da Ucrânia e oligarca local de petróleo e gás, compra a briga, expulsa os russos e obriga a Gasprom a contratar serviços ucranianos para manter suas instalações na Ucrânia funcionando. Inicia-se uma guerra pelo domínio do gás entre Rússia e Ucrânia, que desemboca na invasão russa.

EXPLOSÃO NO MAR DO NORTE

Pouco depois do início do conflito, uma sabotagem explodiu os dois gasodutos submarinos do Nordstream 1 e um do Nordstream 2, sobrando apenas um em funcionamento. Incompetência do sabotador? Independente do autor da façanha, é ótima notícia para quem quer acusar os ucranianos de jogarem sujo e de ameaçarem a Europa de morte por congelamento no inverno.

Mas com apenas um gasoduto funcionando, o preço do metro cúbico do gás vendido pela Gasprom à Europa subiu às alturas. Diminuiu a quantidade de gás, mas o fluxo de pagamento não caiu muito.

Alemanha e França correm para pedir um botijão de gás emprestado aos vizinhos. Batem primeiro na casa dos americanos, que estavam auto-suficientes em gás e petróleo até pouco tempo antes, mas o recém-eleito Joe Biden mandou parar a obra do oleoduto / gasoduto do Alasca, a menos de 5% para o final da obra, por “questões ambientais”. (Parece que os índios Hunchacawah ficaram muito chateados com aquele tubo enorme enterrado em suas pradarias, dificultando a reprodução das doninhas listradas do norte.) Proibiu também a produção de óleo e gás a partir das enormes reservas de xisto betuminoso. Uma centena de empresas de porte médio, que tinham feito todo um investimento inicial para produzir, fecharam as portas. Os pobres trabalhadores das gigantes Exxon, Mobil e Shell tiveram que trabalhar dobrado para suprir a demanda, mas não foi suficiente. Os americanos voltaram a importar 30% do petróleo por eles consumido. No problem, guys, os sauditas são nossos amigos e vão fazer um precinho camarada.

Os europeus correm então na casa dos outros vizinhos – os árabes. Não apenas os sauditas. Emirados Árabes, Qatar, Iemen, todos estão ávidos pelos dólares dos europeus e americanos, que serão convertidos em Ferraris folheadas a ouro, castelos medievais na Inglaterra e times de futebol cheios de Messis e Neymares. O problema é que levar todo o gás comprado via marítima é uma operação muito cara. Comprimir o gás até liquefazê-lo, bombear para os navios-tanque, atravessar o mar, atracar no porto, bombear para os reservatórios europeus. Operações lentas, caras e perigosas. Muito mais fácil se pudessem estender gasodutos da península arábica direto até a Turquia e dali para a Europa. Mas aí, os tubos vão passar por áreas complicadas – Israel, Líbano, Síria… O alívio para a Europa seria imenso, que dependeria cada vez menos do gás russo, mas traria uma crise financeira aos palácios ex-soviéticos.

SEU SHEIK, TELEFONE! É O DR. PUTIN!

Putin pega a sua caderneta de telefones e liga para todo mundo que ele conhece no oriente médio. Fácil, porque todos – exceto Israel – são seus clientes na lojinha de artigos militares. Tanques, artilharia, aviões, helicópteros, tudo. É preciso parar o fluxo de gás do oriente médio para a Europa antes que a Rússia perca todos os seus clientes no velho continente. Síria e Iran fecham negócio – a russa Gasprom vai extrair e vender o petróleo e gás deles, dividindo o lucro. Em troca, os dois países orientais recebem farto armamento russo, instrutores para uso destas tecnologias e até operadores russos para os sistemas mais complexos, como as defesas aéreas. O problema agora é conter os outros vendedores, aqueles que querem fazer um gasoduto passando por Israel.

ALÔ, BIBI? É VLAD!

A conversa não começou bem entre Netanyahu e Putin. O israelense estava irritado com a ajuda militar russa aos regimes radicais islâmicos, cujo sonho é riscar Israel do mapa por motivos religiosos. Acabaram combinando o seguinte: russos vendem armas aos sírios e iranianos, mas não ensinam a usá-las. Israel destrói estas armas e os russos não se envolvem na briga. Russos continuam controlando o petróleo e gás destes lugares, diminuindo o processo de independência europeu do gás russo. E, de quebra, vendem ainda mais equipamento militar para o oriente médio. Quanto mais os israelenses destruírem, melhor. Mas e o tal gasoduto dos árabes, passando por Israel até a Europa?

– Se você, Bibi, der curso a este gasoduto para a Europa, a nossa amizade termina e eu vou realmente ajudar os sírios e iranianos.

– Calma, Vlad. Você se lembra do Dr. Eitan Aizenberg?

– Não.

– Um que foi pego pelos antissemitas russos. Quebraram as janelas dele. Quebraram uns dentes, também. Ele pediu proteção à sua polícia, ninguém fez nada, ele veio para Israel.

– E daí?

– Ele acaba de descobrir 300 milhões de metros cúbicos de gás natural na nossa costa. Já vamos começar a perfurar.

Putin gelou. Em um segundo, passou pela sua cabeça todo o esforço feito na Síria, no Iran, junto à OPEP e a própria Comunidade Europeia para que o dinheiro do gás natural continuasse a abastecer os cofres russos. Tudo por água abaixo.

Precisaria tirar Israel da jogada.

Os americanos interviriam.

Os sauditas apertariam os americanos para não perderem esse imenso contrato de gás para a Europa, ameaçando subir o preço do petróleo vendido para os Estados Unidos.

Para pressionar Israel, teria que inundar seus inimigos com armas e talvez participar ativamente, o que poderia facilmente virar uma guerra aberta contra Israel e Estados Unidos.

Putin entreabriu a gaveta da escrivaninha e conferiu se a pistola Makarov 9mm estava lá, carregada, enquanto pensava no que dizer. Binyamin Netanyahu – Bibi, para os íntimos – prosseguiu.

– Você acha que a Gasprom pode retirar esse gás para nós e canalizar até a Europa?

Putin tirou o telefone de perto da boca para que Netanyahu não ouvisse o seu suspiro aliviado. Fechou a gaveta com a Makarov dentro, sorrindo.

– Claro que podemos, Bibi. Ninguém entende de extração de gás como nós. Vou mandar meu pessoal de petróleo e gás procurar o seu, amanhã cedo.

Passe aqui semana que vem, vamos tomar uma Vodka de verdade, não aquela porcaria que vendem em Tel Aviv.

– Porcaria é aquela magricela russa do James Bond, Olga Kuriolenko. Mulher de verdade é Gal Gadot. Até os americanos sabem que ela é a Mulher Maravilha!

– Ora, Bibi, vá…

Os dois riram, se despediram e a terceira guerra mundial foi adiada mais uma vez.

Arábia Saudita, Qatar e Emirados Árabes não gostaram nem um pouco da notícia. Mas talvez seja o preço a pagar para continuar a ter Israel e Estados Unidos encarregados de conter os malucos do Iran e da Síria. Já os egípcios gostaram da notícia. A distribuição do gás por navios ficaria por conta deles, ótimo negócio. Se os israelenses precisarem de ajuda para lidar com os malucos de Gaza, o Egito ajudará, claro. Tudo para manter boas relações com o cliente.

LEVIATÃ

Foi o nome dado ao enorme campo submarino de gás natural na costa de Israel. O campo também se estende pela costa de Egito, Israel e Líbano.

Líbano e Egito tem em seu mar territorial porções pequenas e ruins do Leviatã. A profundidade e a espessura da camada de rochas até chegar ao gás tornam o empreendimento inviável. Israel é único que teve a sorte de localizar camadas mais finas de rocha sob águas mais rasas, ideal para a perfuração. No entanto, os barcos de pesquisa geológica que passam próximo das águas libanesas são ameaçados pelos iranianos. “Não toquem no gás que pertence ao Hezbollah!” – disse o aiatolá Khamenei. (Frase interessante, que revela quem ele considera como o “dono” do Líbano. )

Não que os iranianos se importem com as finanças de quem quer que seja. Eles estão desesperados para vender seu gás natural – a segunda maior reserva do mundo. As sanções americanas aplicadas por causa do programa nuclear iraniano estrangularam a principal fonte de renda do Iran, o gás. A esperança do regime dos aiatolás era que a guerra Ucrânia – Rússia levasse os europeus e pedir que os americanos suspendessem algumas sanções, para poderem comprar gás do Iran. Mas os malditos israelenses acharam gás na sua costa e já estão negociando com os europeus. Mais um grande motivo para riscar Israel do mapa.

O PROGRAMA NUCLEAR IRANIANO

O Shah da Pérsia, Rehza Parlev, pediu aos americanos algumas plantas nucleares. Energia elétrica não poluente, medicina nuclear, blá, blá, blá. Na verdade, medo dos iraquianos e Sírios. Meia dúzia de bombas nucleares poderiam acalmar bem as coisas. Antes que os americanos completassem o programa, o Shah foi deposto e o regime dos aiatolás tomou as rédeas, mudando o nome da Pérsia para Iran e buscando uma arma nuclear que riscasse do mapa os piores infiéis do planeta, os judeus israelenses. Para driblar a monitoria dos americanos, europeus e da ONU, os iranianos dividiram suas instalações em cinco cidades distantes entre si. Enriquecimento de urânio aqui, produção de água pesada lá, centrífugas acolá. Assim, os inspetores nunca achariam o equipamento completo para produção de armas nucleares em um mesmo local. Achariam somente os generosos presentes do governo do Iran ao chegar à suíte presidencial do Persian Plaza Hotel.

Os israelenses atrasaram o programa nuclear iraniano diversas vezes. Invadiram os computadores das usinas. Assassinaram o físico chefe do programa. Sabotaram instalações. Bombardearam o reator Osirak, na operação Opera. Roubaram mais de uma tonelada de documentos e plantas do cofre do programa nuclear, que Netanyahu exibiu na TV para envergonhar os iranianos e mostrar ao mundo os planos de produção de armas nucleares. Hossein Salami, general comandante da Guarda Revolucionária Iraniana, percebeu que precisava ocupar os israelenses com outros problemas, caso contrário, jamais terminariam de construir suas bombas nucleares.

Era hora de dar a Israel uma bela dor de cabeça chamada Hezbollah.

Subitamente, um rio de dinheiro e armas fluiu do Iran para o sul do Líbano, fronteira com o norte de Israel. Rapidamente o governo libanês, cristão e pró-Israel, foi amordaçado e manietado. As rédeas foram tomadas pelo Hezbollah. Armas russas chegavam quase diariamente no porto Sírio de Latakia, cruzando por terra até o sul do Líbano. Frequentemente, os russos avisavam aos israelense quando as armas chegariam, para que fossem devidamente bombardeadas. Mas nem sempre. Não é bom perder clientes importante como Síria e Iran, que além de comprar na lojinha de artigos militares, davam a Putin as chaves da produção de óleo e gás na região.

BEIRUT KABOOM

Uma coisa é vender caminhões com os bancos recheados de granadas. Vender cargas de ração para bois com caixas de explosivo C4 no fundo. Outra coisa é entregar um navio inteiro carregado de explosivos, sem ser barrado pelas autoridades.

O Hezbollah estava aumentando drasticamente sua produção de foguetes, para fustigar o norte de Israel. O Hamas, na faixa de Gaza, arrancava os canos de água do chão, deixando a população palestina com sede, para fabricar foguetes. Tantos foguetes exigem muita matéria prima para fabricar explosivos. Nada que um contrabandista russo não possa resolver.

Um navio de bandeira da Moldávia sai da Geórgia, antiga república da União Soviética, com 2.700 toneladas de nitrato de amônia para entregar em Moçambique. Matéria prima para fertilizantes. Mas o navio não tem o dinheiro para pagar pela passagem pelo canal de Suez e volta, aportando temporariamente em Beirute. Os marinheiros não têm dinheiro para se manter, nem documentos para circular no Líbano, e são deportados. Devendo taxas portuárias e sem tripulação, o navio é retido por 2 anos, até a empresa dona da embarcação falir. O governo Libanês resolve descarregar o navio e estocar sua carga nas docas, até que a justiça resolva o seu destino. Lentamente, o nitrato de amônia começa a sumir dos depósitos. Por quê? Misture nitrato de amônia com óleo Diesel e você terá o explosivo mais barato do mundo. Claro, você pode misturar com outras coisas e fazer explosivos melhores. Israel percebe que, à medida que o nitrato de amônia diminui nas docas libanesas, aumenta o número de foguetes disparados ou capturados nas mãos do Hezbollah.

O governo Libanês foi advertido várias vezes por órgãos internos, pela empresa dona do navio, pela empresa Moçambicana dona da carga, que estava estocando uma imensa bomba altamente instável em suas docas. Até que em 2020 uma explosão aconteceu.

A tragédia de Beirute, anteriormente conhecida como “a Paris do Oriente Médio”, não começou em 2020, mas no final dos anos 70, quando grupos radicais islâmicos começaram a enfrentar o governo, transformando o Líbano, “a Suíça do Oriente”, em um país pobre, perigoso e amedrontado. Se depender do Iran, desesperado por eliminar Israel, seu principal rival na venda de gás e grande inimigo religioso, o Líbano continuará no seu lento e sofrido processo de morte.


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