Turcos, Curdos e você – parte II

Turcos, Curdos e você – parte II

Erdogan, presidente vitalício da Turquia

Assim como Putin e Maduro, Erdogan é fruto de um sistema democrático, com eleições limpas e claras, que sempre os retornam à cadeira principal da nação. Não é culpa deles se são populares. Também não é culpa deles se adversários políticos infartam subitamente ou cometem crimes hediondos e acabam presos.

Mas Erdogan tem uma particularidade: ele quer duas coisas incompatíveis. Membro da OTAN, Erdogan quis comprar jatos invisíveis ao radar (F35) dos americanos, ao mesmo tempo em que comprava mísseis antiaéreos russos S400. Impossível. Os americanos cortaram o negócio. Russos também. Nenhum dos dois lados aceita o risco dos turcos entregarem a sua tecnologia bélica ao concorrente. Erdogan acabou fechando com a Rússia. Agora a Turquia é o único membro da OTAN que compra material bélico dos russos.

Erdogan quer ser cidadão europeu e extremista muçulmano ao mesmo tempo.

Erdogan se esforça, desde 2014, para que a Turquia entre na União Européia. Mostra na TV que as mulheres turcas circulam livremente, votam e são eleitas, empreendem e viajem sozinhas, como as européias. Mostra que não há leis religiosas que interfiram nos direitos básicos dos cidadãos. Mas vai à TV e defende o Hamas na sua luta político-religiosa contra “os infiéis”. Faz comícios onde diz que ajudará os guerreiros de Allah a extirpar o câncer judeu do planeta. Depois ele se queixa da demora da União Européia em aceitar a Turquia! A Europa, já inundada por imigrantes muçulmanos, que custam caro ao estado e que são salpicados de extremistas perigosos, não quer ter um membro que faz a ponte geográfica entre Europa e Oriente Médio, com chances de ser um imenso portal para elementos indesejáveis.

Sem moderar seu discurso de muçulmano extremista, Erdogan pressiona para entrar na União Européia, não apenas por status. Sim, Erdogan adora usar ternos caros e viver como um europeu rico. Sim, ele quer que a Turquia tenha uma imagem moderna e tecnológica. Mas, antes disso, Erdogan tem um incêndio econômico a apagar. A Europa poderia abastecê-lo de euros, mas ele não pode mais esperar pela Europa. Com o desemprego e a inflação nos seus calcanhares, Erdogan aproveita a confusão no Oriente Médio para tentar tomar o petróleo dos curdos.

Israel?

Para que o plano dê certo, Erdogan precisa esquentar as coisas em Israel. A mobilização do exército e da população israelense precisa ser ainda maior. A situação em Israel precisa piorar muito. Caso contrário, os 300.000 curdos que moram em Israel vão se mobilizar para enfrentar os turcos. Só ficarão em Israel se a ameaça às suas casas, negócios e familiares próximos for maior do que a ameaça nas montanhas do Curdistão. E, vale lembrar, esses 300.000 curdos não são cordeirinhos.

Breve história dos curdos

Religião e dinheiro. São estes os dois grandes motores dos conflitos humanos.

A questão do dinheiro, muito óbvia, dispensa explicações. Já a questão religiosa pode parecer estranha aos brasileiros, povo pacífico que convive bem com qualquer grupo religioso.

O oriente médio é habitado basicamente pelas três grandes religiões – judeus, cristãos e muçulmanos. A forma como as seções mais radicais destes três grupos lidam com os outros define muitas coisas.

Se você é judeu, deve evitar o contato com pessoas de outra religião.

Se você é cristão, deve buscar o contato com pessoas de outra religião e insistir até que elas se convertam ao cristianismo.

Se você é muçulmano, deve buscar o contato com pessoas de outra religião. Se elas não se converterem ao Islam imediatamente, você deve matá-las.

E foi por este motivo que o antigo território dos curdos foi perdido para a Síria, Iraque, Armênia, Irã e Turquia. De todo esse pessoal, os curdos eram o único grupo não muçulmano na região. São Yazidi, praticantes de uma religião semi-zoroastrista, herdeiros de tradições mitraístas babilônicas. São monoteístas, mas creem que o anjo maior da criação não se rebelou inteiramente contra o criador, e a fonte do mal está no próprio homem. Por isso, os muçulmanos os chamam de adoradores de Satanás. Isso justificou uma cruzada de extermínio e expulsão dos curdos da sua região de origem, desde o século 18, ainda no império Otomano.

Após a primeira guerra mundial, a questão religiosa perdeu espaço para a questão petrolífera, mas não deixou de existir.

Seguidamente acossados pelos vizinhos, especialmente pelos turcos, os curdos se espalharam pela região, em longas marchas, nas quais as mulheres iam à frente, leves e portando água, porque são a chance de procriação e perpetuação do seu povo. Os homens vinham atrás, carregando a bagagem mais pesada e as poucas armas. Os idosos e doentes propositadamente ficavam para trás, na esperança de atrasar os seus perseguidores, e eram rapidamente exterminados.

Os curdos que pediram refúgio em Israel se viram no único país do oriente médio onde a sua religião não importa. Cumpra as leis como todo mundo e viva a sua vida como quiser. Era uma grande surpresa. A outra grande surpresa foi a convocação das mulheres para o serviço militar. Rapidamente, as mulheres curdas, endurecidas pelas marchas de fuga e pela morte dos seus entes queridos, se mostraram combatentes de grande tenacidade.

Treinadas pelo exército israelense, especialmente na função de snipers, muitas delas voltaram para as vilas curdas na fronteira da Síria e do Iraque com a Turquia para defender os seus. O resultado foi a modernização da força de combate curda, que também aumentou muito em número, com o estímulo às mulheres para entrar em combate, algo antes inconcebível para elas.

A presença maciça de mulheres na frente de combate trouxe alguns problemas inesperados para ambos os lados. Homens curdos não aceitam combater ao lado de mulheres que usam maquiagem. Elas ameaçam ir embora se não puderem usar maquiagem, eles não arriscam perder suas atiradoras de longa distância e o impasse continua. Do lado inimigo, os combatentes do Estado Islâmico evitam ao máximo o combate com as unidades compostas por mulheres curdas. Se morrerem em combate contra outro homem, são mártires e serão recebidos por Allah. Mas se morrerem pelas mãos de uma mulher, além da grande vergonha, vão para o inferno.

Saddam Hussein chegou a exterminar vilas inteiras de curdos no norte do Iraque com armas químicas diversas – gás mostarda, gás Sarin e outros. Nada que os russos também não tenham feito na Síria. Mas, após a derrota de Saddam, a ONU reconheceu – não um país –mas uma região autônoma Curda no Iraque, onde os curdos podem se organizar, se defender e explorar petróleo.

Mulheres curdas têm tomado a iniciativa também na política, como Nisri Barwari no Iraque e Leila Zana na Turquia.

Leyla Zana, quando eleita para o parlamento da Turquia, fez o juramento oficial em turco, como obriga a lei e acrescentou em curdo: “Lutarei para que turcos e curdos vivam em igualdade parlamentar”. Outros parlamentares gritaram “Prendam-na!”, “Separatista!” e “Terrorista!”.

Quando perguntaram a Nisri Baswari se considerava ceder parte da região petrolífera aos turcos e sírios, ela respondeu: “Hoje, querem nos exterminar por causa do petróleo. Sem ele, não teremos armas e seremos exterminados por causa da religião.”

Em resumo, parte importante da força militar e política dos curdos é hoje de mulheres jovens com conexões em Israel. E Erdogan não pode correr o risco de ter, subitamente, 50.000 homens e mulheres curdos, treinados pelo exército israelense, reforçando as tropas curdas em Kirkuk ou Erbil.

É por isso, além da questão religiosa, que Erdogan ameaça atacar Israel em apoio ao Hamas, inclusive com armas nucleares. Grandes comícios em apoio ao Hamas foram organizados pelo governo turco.

O ataque

Depois de dois anos de ataques aéreos esporádicos contra unidades dos curdos, finalmente Erdogan lançou um ataque por terra contra a região autônoma do Curdistão no norte do Iraque. No combate, 12 soldados turcos morreram. A imprensa turca, no entanto, noticia que uma unidade turca foi atacada e que 12 dos seus soldados foram assassinados por terroristas curdos. A intenção é legitimizar um ataque turco de maiores proporções ao Curdistão.

E eu com isso?

Se, para prender 50.000 curdos em Israel, Erdogan atacar simultaneamente Israel e o Curdistão, Israel vai retaliar e o conflito vai se complicar. A Turquia é membro da OTAN, e um ataque a um dos membros enseja a resposta de toda a OTAN. Os Estados Unidos, aliado de Israel, abrirá fogo contra um membro da OTAN? Países árabes ainda não diretamente envolvidos no conflito podem se envolver em apoio ao Hamas, encorajados pela Turquia. Não pense que Erdogan é razoável. Ele quer entrar na União Européia, mas caças turcos frequentemente trocam tiros com caças gregos. Ele compra armamento dos russos, mas seus caças abateram um avião militar russo, recentemente. A Rússia vai aproveitar para se apossar das áreas petrolíferas da Síria e Iraque? Estados Unidos e Europa conseguirão proteger seus aliados Árabes?

Se o conflito se tornar uma guerra envolvendo todo o oriente médio, muçulmanos de todo o mundo colocarão as principais capitais do mundo em convulsão. Washington, Londres, Paris, Berlim, Estocolmo, são cidades com grande concentração de muçulmanos nos seus arredores.

Imagine este quadro junto com a chegada da COVID24. Cenário ideal para a China atacar Taiwan e a Coréia do Norte atacar a Coréia do Sul. Tudo isso com o pano de fundo de uma Europa endividada e com altos índices de desemprego. Os Estados Unidos com uma dívida pública de quase 28 trilhões de dólares e explosão do número de pessoas sem-teto nas grandes cidades. Se loucos inconsequentes como Kim Jong Un ou o Aiatollah Kahmenei usarem armas nucleares, o desenrolar é apocalíptico. Navios trazendo insumos para a fabricação de medicamentos no Brasil não chegarão. Nem sairão daqui carregados de soja e milho para e Europa e China. O trânsito de navios no mundo será seriamente afetado.

Não custa começar a fazer uma pequena reserva financeira, não somente em reais, mas em também em dólares e ouro físico. Pense no que você deveria fazer para garantir o sustento da sua família em uma crise de abastecimento. Só por garantia.

E se você não acredita na possibilidade deste cenário catastrófico, lembre-se que basta a ameaça deste cenário para que as bolsas despenquem e com elas todo o sistema de crédito lastreado em papéis. A má notícia de Tóquio chega a São Paulo em segundos. Retire seu capital de ativos de risco e prepare-se.


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